o que esperar do encontro na Casa Branca

Lula se reúne nesta quinta-feira (7) com o presidente americano, Donald Trump, na Casa Branca, em busca de uma vitória diplomática que reforce sua imagem internacional — exatamente quando sua autoridade doméstica está abalada por derrotas no Senado e vulnerabilidade em segurança pública. Mas há uma contradição incômoda: o presidente que rotulou Trump de “imperador” e “autoritário” agora precisa dele para conter a narrativa de enfraquecimento político.

O encontro ocorre em um cenário minado. A pauta inclui ameaças tarifárias que ainda pairam sobre o Brasil, pressão para classificar facções criminosas como organizações narcoterroristas — o que Lula resiste — e uma “química” que esfriou desde o primeiro contato na ONU, no segundo semestre de 2025. A confirmação tardia da reunião, a escalada no Oriente Médio e meses de críticas públicas de Lula transformam o encontro numa aposta de “tudo ou nada”: um saldo positivo pode aliviar a pressão interna; uma exposição negativa pode custar caro na reeleição.

Para especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, a reunião é arriscada, mas necessária — e carregada de armadilhas políticas e econômicas que Lula terá dificuldade em contornar.

O cenário político do encontro Lula e Trump

A escalada no Oriente Médio consome o governo Trump, e a “química” entre ele e Lula esfriou desde o primeiro contato na Assembleia Geral da ONU, no segundo semestre de 2025. Apesar de ter sido acertada em janeiro, em conversa telefônica entre os dois, a visita foi adiada por causa do conflito no Oriente Médio. Desde então, o tom entre os dois se deteriorou. Numa sequência de ataques públicos, Lula rotulou Trump como um “imperador” que governa pelas redes sociais e o chamou de “autoritário”. Depois, adotou tom irônico ao sugerir que o americano teria mais cautela caso conhecesse sua “descendência de Lampião”.

Crise diplomática e a expulsão de agentes

O episódio mais recente foi a crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, desencadeada pela prisão do ex-deputado Alexandre Ramagem em Orlando, em abril, e sua soltura após pressão da ala bolsonarista junto ao governo americano. O resultado foi a expulsão recíproca de agentes: os EUA removeram um delegado da Polícia Federal sob acusação de interferência indevida, enquanto o Planalto descredenciou um oficial americano.

Para Vinícius Rodrigues Vieira, professor de relações internacionais da FAAP, a reunião é arriscada, mas necessária. O presidente tenta reagir a derrotas recentes no cenário doméstico e sinalizar força ao eleitorado de centro, visto como decisivo para a reeleição.

Segundo Cezar Roedel, sócio da Roedel Intel Advisor, Lula e aliados fazem um movimento de “tudo ou nada”: um saldo positivo, com anúncios em comércio ou segurança, pode aliviar a pressão interna; uma exposição negativa pode impor custos políticos relevantes para a reeleição.

A sombra das tarifas e o efeito econômico

No plano econômico, a ameaça de novas tarifas segue no radar. A Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou o “tarifaço” imposto por Donald Trump em 20 de fevereiro. A decisão invalidou as “tarifas recíprocas” de 10% ou mais que vinham sendo aplicadas desde abril de 2025 à maioria dos parceiros comerciais dos EUA. O adicional de 40% imposto aos produtos brasileiros no final de julho ainda persiste, mas muitos produtos saíram da lista após negociações entre os dois governos.

Investigação sob a Seção 301

Em nota, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) afirmou que o Brasil e a China continuam sob investigação com base na Seção 301 (mecanismo que permite retaliação por práticas comerciais desleais), o que preserva instrumentos de retaliação.

Welber Barral, sócio da Barral M. Jorge Consultores Associados e ex-secretário de Comércio Exterior, avalia que o encontro ocorre sob essa “sombra”, com risco de novas medidas já no segundo semestre. “A viagem busca preservar o diálogo e a química, mas há incerteza sobre a capacidade de gerar resultados concretos em comércio”, afirma.

O cenário se complica com novas pressões. Declarações da secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, que associam a JBS a práticas de cartel — classificadas como ameaça à segurança nacional — aumentam a pressão nas negociações.

“O Departamento de Justiça já analisou alguns milhões de documentos para chegar nessa conclusão. A JBS é uma empresa brasileira importante e isso não pesa positivamente para o Brasil em termos de negócios”, destaca Roedel. Para ele, a vinculação da JBS ao governo Lula tende a alimentar críticas da oposição.

Segurança pública: facções criminosas e narcoterrorismo

Mas há temas ainda mais sensíveis. A pressão para classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações narcoterroristas — parte da nova estratégia de segurança dos EUA — é o ponto mais delicado da agenda. A medida enfrenta resistência do governo Lula sob o argumento de que pode abrir espaço para ingerências externas e ferir a soberania nacional.

Para Roedel, a relutância ignora a gravidade do cenário interno: “Já era tempo de denominar essas organizações como terroristas, uma vez que no Brasil a gente tem quase 30% da população vivendo abaixo de uma governança criminal” (estimativa do especialista).

Na mesma linha, Vieira alerta para o risco de “mexicanização”, com infiltração do crime organizado na política e nas forças de segurança. Segundo ele, embora o rótulo seja uma “faca de dois gumes”, o cenário atual é “péssimo”, e o PCC já opera como uma “grande multinacional sul-americana do crime”.

A segurança pública e o narcotráfico emergem como um dos principais pontos de vulnerabilidade eleitoral do governo; a resistência de Lula em endurecer o discurso contra o narcoterrorismo é vista como um risco eleitoral.

Diante de um eleitorado sensível ao tema da violência, a resistência à classificação pode alimentar a percepção de inação no combate ao crime organizado. “É potencialmente um foco de desgaste político para Lula e favorecimento da oposição.”

Acordo pode incluir minerais críticos

O setor de minerais críticos desponta como a principal — e talvez única — frente de convergência pragmática. “É uma das poucas áreas com chance de trazer algum anúncio”, destaca Barral. Os Estados Unidos têm interesse nas reservas brasileiras de terras raras para reduzir a dependência da China, movimento reforçado pela recente compra da mineradora Serra Verde pela americana US Rare Earths.

“Se Lula fosse inteligente, ele insistiria num acordo favorável contrapondo a nossa dependência da China, que também incomoda os americanos”, afirma Roedel.

O professor da FAAP defende um mecanismo para agregar valor ao produto exportado. “Se for um memorando de entendimento, mesmo que genérico, com transferência de tecnologia, pode ser uma conquista para Lula — algo que ele possa apresentar como negociação sem concessão”.

Nesta quarta-feira, a Câmara dos Deputados pode aprovar a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos — movimento que pode fortalecer a posição de Lula na negociação com Trump. O texto prevê restrições à exportação de minerais brutos, estímulos fiscais para projetos que agreguem valor no Brasil e a criação de um conselho com poder para supervisionar operações, inclusive com participação estrangeira, em ativos considerados estratégicos.

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