Lula radicaliza populismo da campanha pela reeleição em 2026



O “kit reeleição” de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), montado com a ajuda do Congresso e recheado de subsídios bilionários —dos botijões de gás à conta de luz e à ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda— não são os únicos elementos de sua estratégia eleitoral. Para manter sua trajetória de recuperação de popularidade, o presidente prepara uma nova leva de promessas com forte apelo social e alto custo fiscal.

O plano em preparação inclui a defesa da gratuidade dos transportes públicos para todos os cidadãos e a redução do horário de trabalho para apenas quatro dias por semana. São propostas de difícil execução, mas com grande potencial de mobilização, especialmente nas redes sociais, onde o governo espera reacender o entusiasmo dos eleitores de baixa renda —a tradicional base de apoio a Lula e ao PT.

A reação dos mercados a este movimento já pode ser percebida. A simples menção à tarifa zero para ônibus feita pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, derrubou a Bolsa de Valores de São Paulo nesta segunda-feira (6). Analistas alertam que, embora populares, tais ideias são vistas pelo setor produtivo como uma grave ameaça à sustentabilidade das contas públicas e à sobrevivência das empresas.

Para o consultor empresarial Ismar Becker, Lula sabe que a reeleição será difícil devido à rejeição significativa e consolidada. Por isso, recorre ao populismo fiscal. “Ocorre, porém, que os benefícios extras não estão garantidos no Orçamento e são destinados a um eleitorado já cativo do presidente, sinalizando um certo desespero de sua parte”, afirma. “Seus maiores avanços até agora se devem apenas aos erros da oposição.”

Para os investidores, o movimento sinaliza que o presidente pode seguir a máxima de Dilma Rousseff, sua antecessora e apoiadora, de fazer o que for preciso para garantir a reeleição, eliminando o resto da preocupação com a crescente dívida federal. Contudo, Lula parece disposto a ultrapassar os limites do populismo econômico, pelo menos no discurso, em busca de um quarto mandato no Palácio do Planalto.

Ônibus gratuitos viram bandeira eleitoral estimada em até R$ 90 bilhões

Em meio a reações negativas, Haddad afirmou que o transporte público gratuito poderá fazer parte da campanha de Lula à reeleição em 2026. Segundo o ministro, está em andamento um estudo técnico sobre a viabilidade da medida por determinação do presidente. “Estamos fazendo uma radiografia do setor. O tema é importante para os trabalhadores, para o meio ambiente e para a mobilidade urbana”, disse.

Embora o conceito já tenha sido defendido há décadas por movimentos como o Passe Livre (MPL) e tentado pela gestão petista (1989-1992) da ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina, atualmente no PSOL, o governo Lula decidiu atualizá-lo como um programa nacional. Visando a gratuidade progressiva, Haddad coleta dados sobre custos, subsídios, vale-transporte e tarifas. A bandeira eleitoral encontra resistência dentro da própria equipa económica.

O principal obstáculo são os gastos com a implementação do modelo em escala nacional, com impacto anual no bolso dos contribuintes estimado em R$ 57 bilhões, segundo a consultoria XP, a R$ 90 bilhões, segundo a Confederação Nacional do Transporte. Por enquanto, o governo avalia alternativas de financiamento, que podem envolver parcerias com estados e municípios, mas sem definir a fonte de financiamento ou prazos.

A simples especulação sobre o subsídio integral às passagens de ônibus, já proposta por Haddad em 2012 à presidente Dilma, seja apenas nos finais de semana ou todos os dias, elevou as taxas de juros de curto prazo entre os bancos na semana passada devido às pesadas implicações fiscais. O mau humor continuou pressionando o dólar e os preços das ações de diversas empresas nos dias seguintes.

PEC da redução da jornada de trabalho já mobiliza bancadas do PT na Câmara e no Senado

A redução da jornada de trabalho apoiada pelo governo está na Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que propõe o fim da escala 6×1 e a adoção de uma carga horária semanal menor — 36 horas — distribuída em quatro dias de trabalho com três dias de descanso. A jornada normal de trabalho não ultrapassaria oito horas diárias e a mudança ocorreria sem redução salarial, preservando direitos e salários.

Apresentada pela deputada Érika Hilton (PSOL-SP) em março, a PEC 8/2025 ganhou então o apoio do PT na Câmara, sob o comando de José Guimarães (PT-CE). O líder petista afirmou que o partido se esforçará para aprovar a proposta e que poderá fortalecer a agenda trabalhista do governo Lula. Mas, apesar do aval dos senadores petistas, o Palácio do Planalto tem sido um tanto cauteloso ao lidar com o tema.

A Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, anunciou no dia 18 de março de 2025 o fim da escala 6×1 como prioridade do partido, com articulações para impulsionar o debate no Congresso e dentro das bases sindicais. O apoio crescente dos parlamentares petistas, incentivado pelo apoio nas redes sociais, consolidou o discurso de um “novo ciclo de direitos trabalhistas” que Lula busca defender às vésperas do ano eleitoral.

Para os críticos, a medida levaria ao aumento dos custos operacionais das empresas, como argumentou a organização patronal Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) no primeiro trimestre do ano, quando a medida foi apresentada pelo parlamentar do PSOL.

Parecer semelhante foi apresentado na época por Alexandre Furlan, presidente do Conselho de Relações do Trabalho da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Ele argumentou que a redução da jornada de trabalho por lei poderia ter efeitos negativos no mercado de trabalho e na capacidade de competição das empresas, especialmente as micro e pequenas. Ainda segundo o representante da CNI, a negociação coletiva é o melhor caminho para empresas e trabalhadores.

“A justificativa de que a redução da jornada de trabalho estimularia a criação de novos empregos não é sustentável, é um cálculo que não bate. O que incentiva a criação de empregos é o crescimento da economia, que deve ser a agenda do nosso país. É preciso lembrar que a Constituição é clara ao indicar que a negociação coletiva é a forma de discutir reajustes de jornada de trabalho”, disse Furlan.

Especialista aponta risco de eleitores verem propostas como meras promessas inviáveis

O cientista político Ismael Almeida avalia que a estratégia de Lula e do governo de adotar agendas populistas e marcadamente de esquerda pode ser um “tiro no pé” em pleno ano eleitoral. Segundo ele, os eleitores podem até reagir com entusiasmo inicial às propostas, mas logo perceberão que elas são inviáveis ​​e dependem do sacrifício de outros setores produtivos da sociedade. “Serão apenas promessas”, afirma.

Na prática, o especialista entende que medidas como redução da jornada de trabalho e ônibus gratuitos tendem a perder credibilidade diante das críticas da oposição e das análises econômicas, soando como um gesto populista e um sintoma de insegurança política —mais focada na conquista de votos do que na execução propriamente dita. “A matemática não bate, porque todo mundo sabe que é caridade com chapéu alheio”, resume Almeida.

Antes de anunciar novos reforços em seu discurso de campanha, Lula já demonstra confiança na vitória nas urnas. “Se jogarmos no trabalho, acabamos dando chance ao nosso adversário. É muito difícil alguém nos vencer em 2026. O governo vai terminar bem, o Brasil vive um momento excepcional”, disse ao visitar o Maranhão nesta terça-feira (7).

Paralelamente, Lula tenta manter o apoio do Centrão enquanto ministros do PP e da União Brasil são pressionados pelos seus partidos a deixarem o governo. Sobre o tema, Lula afirmou que gostaria de mantê-los e não iria “implorar por apoio”. “Se as coisas estão indo bem, por que mudar? Por que essa pequenez de pensar que está atrapalhando um bom ministro que está fazendo um bom trabalho?”, criticou.

“Tarifa” de Trump ajuda Lula a diminuir a distância entre aprovação e desaprovação

A tarifa imposta pela Casa Branca aos produtos brasileiros, vista pela oposição como punição ao antiamericanismo de Lula, acabou se tornando um trunfo político para o presidente, favorecendo sua popularidade. O governo tratou a medida como interferência externa e explorou-a com um forte discurso nacionalista de “defesa da soberania”. A narrativa associava a crise à resistência contra o poder estrangeiro.

A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (9) indica que a popularidade de Lula segue em recuperação. Os resultados revelam que as avaliações positivas e negativas da gestão estão agora tecnicamente empatadas: 48% dos entrevistados aprovam o governo, enquanto 49% o desaprovam. A diferença chegou a 17 pontos percentuais em maio e havia caído para cinco pontos na pesquisa anterior.

Na mesma pesquisa, quase metade dos brasileiros (49%) começou a ver Lula como politicamente mais forte após o breve encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Assembleia Geral da ONU, no final de setembro. Outros 27% acreditam que ele estava mais frágil, 10% entendem que não houve mudança e outros 10% estão indecisos. Para 51%, Lula e Trump “vão se dar bem”.

A pesquisa indica que 33% avaliam o governo como positivo e 37% como negativo, diferença menor que em setembro (31% e 38%, respectivamente). O Genial/Quest foi realizado entre os dias 2 e 5 de outubro, com 2.004 entrevistas presenciais com brasileiros com 16 anos ou mais. O estudo tem margem de erro de mais ou menos dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

Após a reunião na ONU, Lula e Trump conversaram por telefone e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, foi nomeado pelo presidente dos Estados Unidos para negociar as sanções aplicadas ao Brasil.

Embora o governo brasileiro veja a ligação com um tom “positivo”, a oposição vê o contrário, já que Rubio é um seguidor das premissas de Trump e fortemente contra as ações de governos autoritários na América Latina.

“A notícia é simples: a química azedou. […] Rubio seguirá a carta de Trump: normalidade democrática, fim da censura e da perseguição política, eleições livres e deixar Bolsonaro em paz”, afirmou o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ).

Para o analista político Brian Winter, editor-chefe da revista Américas trimestralmenteA nomeação de Rubio como negociador é “o caminho mais difícil possível para o Brasil”, ou seja, o governo Lula deverá lidar com um representante difícil, que terá de fazer pedidos exigentes.

Em postagem em seu perfil no X, Winter escreveu que “os brasileiros acham que a conexão [entre Trump e Lula] Correu bem, mas Trump nomear Marco Rubio como responsável pelas conversações é o cenário mais difícil [para as negociações] – ele é um crítico de longa data de Lula e pode impor demandas relacionadas à Venezuela, à China e a outras questões.”



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