O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira (21) que poderá expulsar agentes dos Estados Unidos em serviço no Brasil como medida de reciprocidade após o governo norte-americano ordenar a saída de um delegado da Polícia Federal que atuou na prisão do ex-deputado federal Alexandre Ramagem, na semana passada.
Na véspera, o delegado Marcelo Ivo de Carvalho foi informado que teve que deixar o país por supostamente “contornar pedidos formais de extradição e ampliar perseguições políticas” em território norte-americano. Fontes familiarizadas com o caso afirmam que a Polícia Federal e o governo brasileiro foram pegos de surpresa com a decisão. A expectativa é que chegue ao Brasil até o final do dia.
“Fui informado esta manhã, acho que se houve abuso americano em relação ao nosso policial, faremos reciprocidade com o dele no Brasil. Não há conversa. Ou seja, queremos que as coisas aconteçam da maneira mais correta possível, mas não podemos aceitar essa interferência e esse abuso de autoridade que alguns norte-americanos querem ter em relação ao Brasil”, disse Lula a jornalistas em Hannover, na Alemanha, onde está em agenda oficial.
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Ao lado de Lula, o ministro Mauro Vieira, das Relações Exteriores, afirmou que ainda não houve confirmação oficial sobre a expulsão e que a medida “não tem fundamento.
“O delegado da Polícia Federal que está em Miami trabalha em conjunto com as autoridades americanas, ele está lá justamente para esse fim, e essa função é baseada em um memorando de entendimento entre a Polícia Federal brasileira e as autoridades americanas. Portanto, todos sabiam e trabalharam juntos. Aguardamos esclarecimentos das autoridades americanas sobre o motivo desta medida tomada”, pontuou.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, reforçou que o agente está em missão nos Estados Unidos há mais de dois anos e que trabalha para identificar fugitivos brasileiros.
“Fazendo atividades de cooperação policial como fazemos com 34 países. [vamos] Aguardaremos formalmente algum esclarecimento para depois podermos adotar qualquer medida”, acrescentou.
Na véspera, Andrei Rodrigues assinou a nomeação da delegada Tatiana Alves Torres como substituta de Marcelo Ivo de Carvalho na função de “oficial de ligação do Immigration and Customs Enforcement (ICE), em Miami/Estados Unidos”.
Alckmin adota cautela
Pouco depois, em evento em Brasília, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) preferiu adotar um tom mais cauteloso e afirmou que o governo brasileiro ainda está se informando sobre a expulsão para decidir como reagirá.
“Esta é uma decisão do governo norte-americano, vamos esperar. […] O Brasil sempre tem a lógica da reciprocidade, mas vamos esperar”, disse, ressaltando que ainda não tinha informações oficiais sobre a expulsão do delegado da Polícia Federal.
Fontes familiarizadas com o assunto afirmaram que a autoridade também ainda investiga as circunstâncias da decisão do governo dos Estados Unidos e que terá uma reunião fechada com o delegado assim que ele chegar ao Brasil, possivelmente até o final da tarde.
Como foi a expulsão?
A ordem de saída do delegado foi divulgada pelo Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental do governo dos Estados Unidos. Sem citar nomes, o comunicado acusou um funcionário brasileiro de tentar “contornar pedidos formais de extradição” para promover “perseguição política” em território americano.
“Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para driblar pedidos formais de extradição e estender a perseguição política ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro em questão deixe o país por tentar fazer isso”, diz a nota oficial publicada em uma rede social.
O delegado Marcelo Ivo de Carvalho, que trabalhou em Miami no Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro (ICE) dos Estados Unidos, foi designado para a função em março de 2023, com a missão de colaborar na localização e prisão de brasileiros procurados pela Justiça.
O mandato inicial da missão era de dois anos, mas foi prorrogado até agosto deste ano por decisão do governo brasileiro. Mesmo assim, segundo informações oficiais, a Polícia Federal não foi notificada formalmente pelos Estados Unidos sobre a decisão de saída do agente. O Itamaraty, por sua vez, optou por não comentar o caso até o momento.
Lula intensificou críticas a Trump
A expulsão do chefe da Polícia Federal brasileira é apenas um dos vários episódios recentes de fortes críticas de Lula ao presidente dos EUA, Donald Trump, e em meio aos preparativos para uma visita oficial do petista a Washington.
A viagem deveria ter ocorrido em março, mas foi adiada sem data definida devido ao início da guerra entre os Estados e Israel contra o Irã. Havia a expectativa de que isso pudesse ocorrer neste mês de abril, mas o avanço do conflito congelou as negociações.
Entretanto, Lula intensificou as críticas a Trump, afirmando que o líder norte-americano age como um “imperador do mundo” que “pensa que, por e-mail ou Twitter, pode taxar produtos, punir países e fazer guerra”.
