Quem é Daniel Monteiro, o advogado do Master que pode entregar figurões da República


O advogado Daniel Monteiro deixou de ser um nome discreto nos bastidores para se tornar peça central para a compreensão do funcionamento de um mecanismo complexo, que, segundo a Polícia Federal, funcionava dentro e fora das estruturas formais do Banco Master, com potencial para entregar nomes importantes da República supostamente envolvidos no esquema. Ele foi preso nesta quinta-feira (16) na fase mais recente da Operação Compliance Zero, que visa o suposto esquema bilionário do sistema financeiro brasileiro.

Para os investigadores, ele não apenas monitorou as operações do banco, mas também foi quem fez o sistema funcionar para o ex-controlador do banco liquidado, Daniel Vorcaro.

Para fontes ligadas às investigações, é justamente esse domínio das estruturas do esquema que faz do advogado uma figura-chave, não só para entender o que foi descoberto, mas para o que ainda pode vir à tona.

Ao longo do seu percurso profissional, Daniel Monteiro construiu uma carreira no mundo jurídico e empresarial, tornando-se sócio de diversas empresas e escritórios de advogados.

Advogado seria operador jurídico-financeiro de Daniel Vorcaro

Segundo as investigações, Daniel Monteiro é identificado como operador jurídico e financeiro de Daniel Vorcaro. O advogado teria desempenhado papel estratégico na estruturação de mecanismos capazes de dar aparência de legalidade a transações suspeitas.

Sua atuação, conforme decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, foi além da tradicional assessoria técnica. Ele seria responsável por apoiar legalmente as operações, criar estruturas empresariais e facilitar a circulação de ativos considerados inconsistentes ou sem respaldo real nas negociações envolvendo o Mestre.

No centro das investigações está a chamada criação de uma “conformidade paralela”, um sistema informal que funcionaria independentemente da inspecção oficial e dos controlos de controlo. Esse arranjo permitiu, segundo os investigadores, validar operações por meio de documentos produzidos em série, contratos, extratos, planilhas e procurações, que deram aparência regular às carteiras de crédito posteriormente negociadas com o Banco Regional de Brasília (BRB).

Segundo Mendonça, “Daniel Monteiro teria estruturado empresas de fachada para ocultar bens, documentos e dar aparência de legalidade às operações financeiras”.

Somente nas negociações envolvendo o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, também preso esta semana, as investigações apontaram negociações organizadas por Monteiro em R$ 146 milhões em imóveis de luxo entre o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o então presidente do BRB. Desse total, cerca de R$ 75 milhões teriam sido destinados à Costa em imóveis em Brasília e São Paulo.

“As negociações foram suspensas após Vorcaro tomar conhecimento das investigações sobre o suposto esquema de pagamento de propina e ocultação de bens, no qual Monteiro atuaria como operador jurídico-financeiro”, descreve Mendonça ao se referir às negociações entre BRB e Master em carteiras compostas por ativos com indícios de irregularidade.

Mesmo assim, foram formalizadas e vendidas, movimentando bilhões de dólares em recursos. Parte desse dinheiro, segundo os autos, teria sido desviado para pagamento de vantagens indevidas, incluindo a aquisição desses imóveis de alto padrão em benefício do então presidente do BRB, que aparece nas investigações como uma espécie de coordenador da compra da Master pelo banco público.

A defesa de Costa afirmou, ainda nesta quinta (16), que a prisão é, inicialmente, absolutamente desnecessária e criticou a medida, embora tenha evitado fazer mais comentários por respeito à decisão do ministro responsável, indicando que analisaria o caso com mais calma antes de adotar medidas. O advogado Cléber Lopes, defensor de Costa, também reiterou que tanto ele quanto o ex-presidente do BRB mantêm a convicção de que nenhum crime foi cometido.

Segundo Lopes, neste momento está descartada a possibilidade de Costa assinar um acordo de delação premiada. Esta opção não está a ser considerada na fase actual do processo.

Apesar disso, a defesa não exclui completamente a hipótese, indicando que a decisão poderá ser reavaliada futuramente, dependendo da estratégia adotada e da possível utilidade das informações que possam ser apresentadas durante as investigações.

VEJA TAMBÉM:

  • Manual do Mestre, criado pelo escritório da esposa de Moraes, prometia transparência e anticorrupção

  • Coletivo MJSP

    Governo Lula muda estratégia e tenta capturar paternidade de operações contra o Mestre

Daniel Monteiro foi o responsável por desenhar estrutura de ocultação de bens, diz investigação

O advogado Daniel Monteiro também é apontado pela investigação como o responsável por desenhar a estrutura de ocultação de bens, o que pode levar a nomes ainda não revelados com envolvimento no suposto esquema.

Segundo os investigadores, a estratégia envolveu a criação de empresas de fachada, registadas em nome de terceiros, utilizadas para adquirir bens sem vincular diretamente os verdadeiros beneficiários. Entre os mecanismos identificados está a utilização de parentes como diretores dessas empresas e seu registro no endereço do próprio escritório de advocacia.

Outro elemento que chama atenção nas investigações é o controle de documentos considerados sensíveis envolvendo o caso Master. Há indícios de que, à medida que as investigações avançavam, ele agiu para interromper os registros oficiais de propriedade e manter as escrituras fora dos cartórios, dificultando o rastreamento dos bens pelas autoridades, enquanto a suposta fraude já estava em andamento.

As autoridades apontam ainda que Monteiro participou diretamente na operacionalização de pagamentos ligados a um esquema de suborno. Só nessa frente, o valor movimentado sob sua gestão teria chegado a cerca de R$ 86 milhões, segundo estimativas da investigação, cujos beneficiários ainda estariam em mapeamento.

A estreita relação com o núcleo decisório do esquema e com Daniel Vorcaro é outro ponto destacado. Mensagens interceptadas pela PF indicam que ele foi chamado por Vorcaro para executar estratégias e resolver obstáculos operacionais sensíveis, tratando as estruturas como parte de um sistema estabelecido para supostamente cometer fraudes.

Para os investigadores, isso reforça a hipótese de que sua atuação foi essencial para Master e Vorcaro e também para a continuidade das operações e a ligação com figuras públicas e autoridades.

Portanto, além deste eixo, há suspeitas de que as estruturas montadas não se limitaram a um único tipo de operação. A Polícia Federal trabalha com a possibilidade de que o mesmo modelo tenha sido replicado em outras frentes, envolvendo fundos de investimento e diversos fluxos financeiros que ainda não foram totalmente mapeados e ainda estão sob investigação.

A defesa do advogado Daniel Monteiro sustenta que seu trabalho sempre foi técnico e dentro dos limites da profissão. Confira a nota completa no final da matéria.

Para os investigadores, neste momento, o nome do advogado aparece no centro de uma investigação que pode avançar para outros envolvidos e revelar novos desdobramentos do esquema.

O conhecimento detalhado que teria sobre os mecanismos financeiros e jurídicos do caso Master poderia ser decisivo na reconstrução do caminho do dinheiro e na identificação de todos os beneficiários.

Um advogado com perfil empresarial

Além da atuação jurídica, Monteiro também atuou em operações no setor empresarial. Segundo registros institucionais, ele participou de iniciativas relevantes, como a aquisição da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), além de projetos vinculados à rede Cesta do Povo e ao programa Credcesta, focado na área de benefícios e distribuição.

O Credcesta era um cartão de benefícios consignado, operado sob a égide do Master, que serviu como um de seus principais motores de expansão e foco de fraudes, utilizando desconto direto em folha de pagamento para servidores públicos e aposentados.

O produto, oriundo de uma privatização na Bahia e amplamente oferecido no Rio de Janeiro, ficou conhecido por cobrar juros altíssimos e criar uma “dívida infinita”, com cerca de 2,7 milhões de contratos que fracassaram e foram sujeitos à liquidação do INSS por irregularidades, mesmo após a intervenção do banco.

Monteiro também parece ter um forte perfil de estruturas societárias e operações financeiras, tendo participado na organização de fluxos de recursos e na formalização de transações complexas.

PT da Bahia propôs homenagem a Daniel Monteiro

Antes de se tornar alvo da operação, Daniel Monteiro também acumulou reconhecimento institucional. Em dezembro de 2024, recebeu o título de Cidadão Baiano na Assembleia Legislativa da Bahia. A homenagem foi proposta pelo deputado estadual Rosemberg Pinto, do Partido dos Trabalhadores (PT-BA).

Daniel Monteiro é formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e possui MBA em Finanças pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

Segundo Rosemberg, a homenagem foi justificada porque o advogado tinha ampla experiência em Direito Societário, Bancário e Mercado de Capitais, tendo atuado em operações de grande relevância para a Bahia e outras regiões do país.

Na ocasião, o deputado petista afirmou que Daniel Monteiro teve participação relevante em projetos estratégicos no estado, incluindo o processo de aquisição da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), que, segundo o parlamentar, contribuiu para o formato de funcionamento da rede Cesta do Povo e do programa Credcesta.

O deputado também atribuiu ao advogado o papel na estruturação das emissões de debêntures [empréstimos] da Companhia de Energia Elétrica do Estado da Bahia (Coelba), realizada em 2005 e 2007, além da participação na venda da Companhia Petroquímica Ciquine, em 2002.

Ainda segundo Rosemberg Pinto, após a operação envolvendo a Ebal, Monteiro ampliou sua presença profissional na Bahia, passando a assessorar empresas locais em processos de reorganização societária, captação de recursos e estruturação de investimentos.

O parlamentar destacou ainda que, em 2022, o advogado reforçou esse vínculo ao abrir uma unidade de seu escritório em Salvador, que, na época, contava com duas sedes na capital e cerca de 20 profissionais.

O que diz a defesa de Daniel Monteiro

A defesa de Daniel Monteiro afirmou que ficou surpreendida com a decisão de prender o seu cliente. Os advogados sustentam que o seu trabalho sempre foi estritamente técnico, no exercício da sua profissão, prestando serviços como advogado para o Banco Master e também para outros clientes.

Segundo os defensores, Monteiro não exercia nenhuma atividade que ultrapassasse o âmbito profissional da advocacia. Os representantes reforçam que ele não participou de práticas ilícitas e que sua conduta sempre se limitou às funções jurídicas que desempenhava.

A nota destaca ainda que o advogado está à disposição do Tribunal para prestar esclarecimentos e colaborar com as investigações. A defesa diz confiar que, ao longo do processo, os fatos serão devidamente apurados e esclarecidos.

Abaixo segue a nota de defesa na íntegra:

“A defesa de Daniel Monteiro informa que foi surpreendido, hoje, com a decisão de prendê-lo. Ele ressalta que seu trabalho sempre foi de forma estritamente técnica, como advogado do Banco Master e de diversos outros clientes, sem qualquer participação em atividades fora do exercício profissional. Daniel está à disposição da Justiça e confia que os fatos serão cabalmente esclarecidos”.

VEJA TAMBÉM:

  • Alessandro Vieira

    Oposição pressionará caso Master pela disputa eleitoral após fracasso das CPIs

  • Ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes em sessão do STF

    Ministros do STF querem retaliar senadores da CPI mesmo sem indiciamento



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *