Eleição indireta para mandato ‘tampão’ de governador deve favorecer direita no Rio



Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) discordam sobre as regras da eleição para mandato tampão de governador do Rio, após a saída de Cláudio Castro (PL) do cargo. Se a eleição cair para 70 deputados estaduais, como já havia sido decidido pelo Tribunal Superior Eleitoral, o grupo de Flávio Bolsonaro é o claro favorito, porque tem ampla maioria na Casa Legislativa.

Nesse cenário, o deputado estadual Douglas Ruas (PL) tomaria posse, ficaria mais conhecido do eleitorado e teria maiores chances de ser reeleito no pleito de outubro, agora para mandato completo.

Caso a Justiça decida que a eleição é direta, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD) pretende concorrer e é considerado o favorito, por ser muito mais conhecido que Ruas. O plano do ex-prefeito também é ser reeleito em outubro, no pleito ordinário. A candidatura de Paes, agora e em outubro, tem o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Dos dez ministros do tribunal, cinco já votaram e é conhecida a posição de outros três. A decisão, portanto, depende de dois deles.

O embate no STF opõe os grupos liderados por Alexandre de Moraes, que defende eleições diretas, e por Cármen Lúcia, que já votou nos deputados para escolher o governador.

Cármen é presidente do TSE e liderou o julgamento que tornou Castro inelegível em março. Também defendem a eleição indireta, prevista na Constituição do Estado do Rio, os outros dois ministros do STF integrantes do TSE, Kássio Nunes Marques e André Mendonça, e Luiz Fux, relator de uma ação relativa ao caso. Todos já votaram, então o julgamento tem quatro votos a favor da escolha do governador pelos deputados.

Na trincheira contrária, já votou Cristiano Zanin, relator de uma denúncia que tramita no mesmo julgamento. A sua ala considera que Castro renunciou para que o seu grupo político mantenha o poder, porque tem maioria na Assembleia Legislativa e não deverá ter dificuldades em eleger o seu sucessor numa eleição indireta. Segundo este entendimento, o Código Eleitoral deve prevalecer, mesmo que o mandato não tenha sido cassado, pois Castro já havia renunciado.

O grupo de Zanin inclui Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes, que já se manifestaram a favor das eleições diretas. Ainda não se sabe como votarão os ministros Dias Toffoli e Edson Fachin, que é o presidente do tribunal.

Dino interrompeu julgamento com pedido de revisão

No primeiro dia de julgamento, os dois relatores (Zanin e Fux) se manifestaram e o placar ficou empatado em um voto para cada tipo de reclamação. No segundo dia, o primeiro a votar seria Flávio Dino, que pediu vista, alegando que é preciso ler o acórdão do TSE sobre o caso antes de decidir. Este documento ainda não foi publicado.

Pelo regulamento, Dino tem até 90 dias para devolver o processo, mas se comprometeu a fazê-lo assim que for proferida a decisão sobre o julgamento realizado pelo TSE, o que deve ocorrer na próxima semana.

Diante do pedido de vista, os integrantes do grupo de Cármen decidiram adiantar o voto, fixando o placar em quatro a um por meio da eleição indireta.

Direita só precisa de mais três votos para eleger indiretamente governador

Se a eleição for direta, além de Ruas e Paes, deverão concorrer os ex-governadores Anthony Garotinho (Republicanos) e Wilson Witzel (DC), além de um representante do PSOL (Glauber Braga, William Siri ou Thais Ferreira) e outro da Missão.

Se a eleição for indireta, Ruas será o candidato do PL, que conquistou quatro deputados na janela eleitoral (período de 30 dias em que os parlamentares podem trocar de partido sem perder o mandato) e chegou a 22. Com os oito do União Brasil e os três do PP, o bloco tem 33 votos, apenas três a menos do que o necessário para formar maioria e eleger o governador.

O PSD de Eduardo Paes tinha seis e aumentou para dez deputados durante a janela partidária. Com os cinco partidos aliados (PT, PDT, PSB, PCdoB e MDB), chega a 20 deputados, 13 a menos que seus concorrentes. A reduzida chance de vitória dificulta a busca por candidatos nesse tipo de eleição.

Um deputado com quem o grupo negociou aproveitou a janela eleitoral e se juntou ao grupo concorrente. Atualmente, os nomes cogitados para a disputa, caso o STF decida pela eleição indireta, são Rosenverg Reis (MDB) e Vitor Junior (PDT). A família de Reis domina a política em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e sua irmã Jane é pré-candidata a vice-governador na chapa de Paes. Vitor Junior é natural de Campos dos Goytacazes e foi vereador em Niterói pelo PT, entre 2009 e 2012.

Grupos de Rua e Paes trocam acusações

O julgamento no STF agitou grupos políticos opositores nas redes sociais e na Câmara Municipal do Rio. O ex-prefeito Eduardo Paes postou em seu perfil no Instagram um trecho da fala de Gilmar Mendes durante o julgamento, em que o ministro cita “o presidente da Assembleia (Legislativa) preso” e informação atribuída ao chefe da Polícia Federal de que “32 ou 34 parlamentares da Assembleia (estadual) recebem mesada por jogos de azar”. Na legenda, o ex-prefeito do Rio escreveu “A verdade demora, mas chega. Cabe a nós mudar! É possível!”

Na Câmara do Rio, durante a sessão desta quinta (9), parlamentares aliados de Paes e Ruas trocaram acusações. O vereador Rogério Amorim, líder do PL, afirmou que seu partido “está absolutamente sereno e tranquilo em ir às urnas. Não temos o menor medo de enfrentar as urnas.

O vereador Salvino Oliveira (PSD), por sua vez, afirmou que “é importante ressaltar: a população do Rio de Janeiro teve uma eleição roubada, por conta do escândalo do Ceperj. É importante que isso seja devolvido à população do Rio de Janeiro: o direito de escolher diretamente quem representará nos próximos quatro anos”. Ele se referia ao caso que levou o ex-governador Castro a perder direitos políticos.

Debate envolve conflito entre Constituição do Rio e Código Eleitoral

Uma eleição “tampão” deve ser realizada no estado porque o governador Cláudio Castro (PL) renunciou em março, para tentar concorrer ao Senado, e não havia mais vice-presidente. Thiago Pampolha também havia pedido demissão, em maio de 2025, para se tornar conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ).

Após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinar a perda dos direitos políticos de Castro e a realização de eleição indireta para escolha de seu substituto, o partido de Paes recorreu ao STF alegando que esta eleição deveria ser direta.

A discussão ocorre porque a Constituição do estado do Rio de Janeiro determina que, em caso de renúncia do governador durante os dois últimos anos de seu mandato, a eleição será indireta. O Código Eleitoral prevê que, caso haja cassação e o cargo fique vago mais de seis meses antes do término do mandato, a eleição deverá ser direta.

Por enquanto, o governador do Rio é o desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Estado. Sem governador ou deputado, o primeiro a ocupar o cargo seria o presidente da Assembleia Legislativa, mas o deputado Rodrigo Bacellar teve o mandato cassado pela Justiça Eleitoral e a lei não confere ao presidente interino o direito de figurar na linha sucessória. Assim, Couto permanecerá no cargo até a eleição do novo governador ou até que a Alerj eleja um novo presidente – isso pode acontecer na próxima semana, e seria mais uma forma de Douglas Ruas chegar ao governo do estado.



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