O Supremo Tribunal Federal (STF) impôs sigilo máximo ao processo que investiga o vazamento ilegal de dados fiscais de ministros e autoridades, colocando o caso no mais estrito nível de sigilo. A medida, classificada como nível 4, impede até mesmo a identificação pública do relator – porém, a ação faz parte do chamado “inquérito das fake news”, que tem como responsável o ministro Alexandre de Moraes e que já completou sete anos sem conclusão.
De acordo com uma investigação do Folha de S.Paulo publicado nesta segunda-feira (23) e confirmado por Gazeta do Povoa classificação segue as regras da resolução 878/2025, que estabelece graus de sigilo e determina que somente no nível máximo o nome do relator deixa de aparecer na consulta pública.
“Devido a informações sensíveis da Receita Federal e do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras)”, afirmou o STF no relatório.
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A investigação foi aberta após decisão da Receita Federal de rastrear possíveis acessos indevidos aos dados fiscais de cerca de cem pessoas, incluindo ministros do STF e seus familiares. O inquérito revelou irregularidades nos sistemas, o que levou ao lançamento de operações contra suspeitos de participar no esquema.
Entre os investigados está o contador Washington Travassos de Azevedo, apontado como um dos possíveis mandantes do vazamento e preso em uma das operações. Sua defesa afirma que enfrenta dificuldades de acesso a decisões judiciais que fundamentaram medidas contra o cliente, como buscas, monitoramento eletrônico e a própria prisão preventiva.
“Passou-se uma semana sem que nenhum pedido de acesso fosse respondido”, disse o advogado Eric Cwajgenbaum, criticando a falta de transparência.
Informou ainda que o gabinete do ministro lhe informou por e-mail que “não há data disponível para despacho e nem mesmo foi apresentada a decisão que decreta a prisão preventiva”, acrescentando que “se passaram quase três semanas sem que meus pedidos sequer fossem considerados”. Para a defesa, a situação representa uma situação de “violações de prerrogativas” e levanta questões sobre o equilíbrio entre o sigilo e o direito à plena defesa.
Entre os dados supostamente vazados está o contrato que a esposa de Moraes, a advogada Viviane Barci, assinou com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para defender seus interesses ao custo de R$ 129 milhões até 2027, mas que foi interrompido após a liquidação da instituição financeira pelo Banco Central. Além da negociação, o jornal O Globo revelou, no final do ano passado, que seu patrimônio pessoal saltou de R$ 24 milhões para R$ 79,7 milhões no período de 2023 a 2024, um crescimento de 232%.
Além da esposa de Moraes, o ministro Dias Toffoli também teve transações relacionadas ao Master publicadas na imprensa. Recentemente, o Estadão publicou mensagens de Vorcaro nas quais questionava o cunhado e operador, Fabiano Zettel, sobre pagamentos ao resort da família do ministro que totalizavam R$ 35 milhões. O jornal O Globo publicou também que enviou ao seu advogado impressões de contratos com a advogada Roberta Rangel, ex-mulher do ministro.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) afirmou que houve “exploração fragmentada e seletiva de informação confidencial das autoridades públicas, divulgada sem contexto e sem controlo jurisdicional, que tem sido utilizada para produzir suspeitas artificiais, de difícil dissipação”.
Como funcionou o esquema
A Polícia Federal afirma que o esquema funcionou em diversas etapas, desde a obtenção clandestina de informações até a adulteração e posterior venda dos dados. Além da comercialização, o material também foi divulgado ilegalmente.
A investigação indica que os envolvidos teriam utilizado técnicas de invasão de sistemas e manipulação de dados para alimentar a base clandestina. O objetivo era transformar o acesso irregular à informação em fonte de lucro através da venda de dados confidenciais.
Segundo a Polícia Federal, os suspeitos podem enfrentar uma série de crimes relacionados às atividades da organização. Entre as acusações estão organização criminosa, invasão de dispositivo informático, furto qualificado mediante fraude, corrupção de dados e lavagem de dinheiro.
