
Desde que Flávio Dino assumiu o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), em fevereiro de 2024, um grupo político a ele leal no Maranhão acumulou uma série de vitórias na Corte, principalmente nas mãos de seu colega Alexandre de Moraes.
São decisões que envolvem principalmente a nomeação de cargos estratégicos no estado, que já foi governado duas vezes por Dino. Essas nomeações são objeto de disputa entre seus aliados políticos e adversários ligados ao atual governador, Carlos Brandão (PSB).
A decisão mais recente, no âmbito dessa disputa, teve como alvo o jornalista Luís Pablo, alvo de uma ação de busca e apreensão ordenada por Moraes por publicar reportagens sobre a utilização de veículos oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão por Dino e sua família em suas visitas ao estado.
O STF informou que a utilização de um Toyota SW4 é fruto de acordo com a Justiça estadual para segurança do ministro e que o inquérito investiga suposto “monitoramento ilegal de seus movimentos em São Luís”. Para Luís Pablo, o objetivo seria descobrir suas fontes, supostamente ligadas ao governo Brandão, interessadas em desgastar Dino.
Antes da operação contra o jornalista, a decisão mais impactante de Moraes contra Brandão afastou do cargo, em agosto do ano passado, o procurador-geral do Maranhão, Valdênio Caminha, indicado pelo atual governador e responsável pela defesa judicial do estado. O ministro proibiu sua indicação para qualquer outro cargo no estado.
Moraes considerou que descumpriu decisões anteriores que determinavam o imediato afastamento e suspensão de salários de outros servidores que tiveram nomeações anuladas por suposto nepotismo cruzado (nomeação de familiares de aliados políticos para cargos de alto escalão).
Na mesma ação, ajuizada em 2024 pelo Solidariedade (comandado no Maranhão por aliados de Dino), Moraes já havia determinado o afastamento de outros aliados de Brandão em posições estratégicas.
Em outubro daquele ano, o ministro afastou Gilberto Lins Neto do cargo de diretor-presidente da Empresa de Administração Portuária do Maranhão (Emap) e Ítalo Augusto Reis Carvalho do cargo de Subsecretário de Infraestrutura (Sinfra) e do cargo de assessor do Maranhão Parcerias (Mapa).
Em dezembro, Moraes se antecipou e mandou anular a nomeação de três aliados de Brandão na Assembleia Legislativa do Maranhão (Alema) – considerando que haveria nepotismo na relação entre Executivo e Legislativo no estado.
Os alvos foram Marcos Barbosa Brandão, irmão do governador, afastado do cargo de Diretor de Relações Institucionais da Alemanha; Camila Correia Lima de Mesquita Moura, cunhada do governador, destituída do cargo de Diretora Legislativa; e Jacqueline Barros Heluy, sogra do sobrinho do governador, destituída do cargo de Diretora de Comunicação Social.
Dias depois, ainda em dezembro de 2024, Moraes suspendeu a nomeação de Marcos Brandão para a Secretaria de Estado Extraordinária de Assuntos Legislativos do Maranhão, recém-criada, e proibiu-o de ser novamente indicado para qualquer cargo ou função pública nos três Poderes do Estado.
Caminha foi afastado dias depois de Brandão apontar a suspeita de Dino de julgar, no STF, processos relativos ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA). Quando era governador, Dino nomeou um assessor do órgão que fiscaliza as contas do estado.
Além disso, como procurador-geral do estado, Caminha havia denunciado à Procuradoria-Geral da República (PGR) dois assessores comissionados do gabinete de Dino, no STF, que teriam acessado irregularmente os sistemas internos da Procuradoria-Geral da República para supostamente subsidiar ações judiciais de interesse da oposição a Carlos Brandão.
Os dois assessores negam acesso irregular – são advogados licenciados e mantêm credenciais para uso do sistema – e fornecimento de dados a terceiros.
Aliados do governador Carlos Brandão afirmam que as decisões têm relação com disputas de poder local. Brandão foi vice-governador de Dino durante seus dois mandatos no Maranhão. Em 2022, o atual ministro do STF deixou o cargo para ser eleito senador. Brandão herdou o governo do estado e foi reeleito naquele ano. Um grupo ligado a Dino, porém, acabou perdendo espaço na administração estadual e passou a fazer oposição a Brandão.
Um dos caminhos foi a judicialização, envolvendo o STF, em casos julgados por ministros que hoje são colegas de Dino. Um dos focos da disputa são as vagas para conselheiros no Tribunal de Contas do estado.
O grupo político de Dino no Maranhão inclui o deputado federal Marcio Jerry, presidente estadual do PCdoB e autor de manifestações em ações no STF que questionam decisões políticas tomadas no âmbito do governo estadual. Um deles manteve suspensa há quase dois anos a nomeação de dois assessores do Tribunal de Contas do Maranhão —processo que está sendo relatado pelo próprio Flávio Dino.
Outro político local ligado ao ministro é o deputado estadual Othelino Neto (PSB), marido da senadora Ana Paula Lobato, eleito deputado de Dino e que ocupou seu lugar no Senado. Quando Dino era governador, Othelino Neto presidia a Assembleia Legislativa. Como governador, Carlos Brandão, porém, decidiu apoiar a eleição da deputada estadual Iracema Vale (MDB) para o comando da Casa.
