
A Procuradoria-Geral da República (PGR) defendeu nesta sexta-feira (23) o arquivamento da ação movida pela jornalista Letícia Sallorenzo de Freitas contra os jornalistas David Ágape e Eli Vieira, autores de “Vaza Toga”, além do ex-assessor Eduardo Tagliaferro.
A jornalista alegou ter sido alvo de uma “campanha difamatória sistemática” para humilhá-la e prejudicar a sua imagem profissional.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, argumentou que os fatos narrados por Letícia se referem a ela honra individual e devem ser resolvidos pela via civil e criminal ordinária, sem necessidade de intervenção do Supremo Tribunal Federal.
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“Neste caso, qualquer impacto negativo na honra do repórter causado pelo conteúdo contestado poderá ser corrigido por meios individuais, criminais e civis”, escreveu o procurador-geral.
Apelou à condenação dos três pela alegada prática dos crimes de calúnia, difamação, injúria, ameaça, perseguição, incitação e indulgência ao crime, associação e organização criminosa, peculato, prevaricação, violação do segredo funcional, coacção durante o processo e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Letícia afirmou que “publicaram conteúdos que questionavam a atuação da jornalista ou incentivavam condutas potencialmente hostis”, citando postagens em que Ágape e Vieira publicaram uma reportagem sobre ela.
Segundo a referida publicação, o jornalista colaborou com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), à época comandado pelo ministro Alexandre de Moraes, apontando perfis e publicações que divulgavam nas redes supostas desinformação contra o tribunal.
No entanto, Gonet destacou que a motivação da denúncia de Letícia para que o caso seja julgado no STF não está ligada às investigações das milícias digitais (4874/DF) ou das fake news (4781/DF).
Em outubro de 2025, o jornalista apresentou uma denúncia criminal alegando ser alvo de uma campanha digital hostil e coordenada após declarações de Tagliaferro. Entre os termos “degradantes e ofensivos” dirigidos a ela, segundo a petição inicial, estão “bruxa do TSE”, “infiltrada” e “X-9”.
Os advogados de Letícia argumentaram que os ataques utilizaram o método “firehosing” – uma técnica de propaganda que utiliza um “alto volume” de mentiras repetitivas para desorientar o público e destruir a credibilidade do alvo.
“Vazamento Toga”
A série de reportagens conhecida como “Vaza Toga” foi produzida a partir de mensagens vazadas trocadas por ex-assessores de Moraes. Entre agosto de 2022 e maio de 2023, Eduardo Tagliaferro comandou a Assessoria Especial de Combate à Desinformação (AEED), no TSE.
Em agosto de 2024, o Folha de S.Paulo revelou conversas entre Tagliaferro e o então juiz instrutor Airton Vieira, assessor mais próximo do ministro no STF. Os diálogos indicaram o suposto uso não oficial do TSE pelo magistrado.
Relatórios produzidos na Justiça Eleitoral teriam sido utilizados para embasar o inquérito das fake news, denunciado por ele no Supremo, em casos relacionados ou não às eleições presidenciais de 2022. Dias depois, Moraes abriu inquérito na Justiça para apurar a origem do vazamento da mensagem.
Em abril de 2025, o conteúdo de uma série de mensagens de Tagliaferro foi divulgado, com exclusividade, por Gazeta do Povo. Nelas, ele disse ter medo de Moraes. “Se eu falar alguma coisa, o Ministro vai me matar ou me prender”, escreveu o perito, em 31 de março de 2024, à esposa, em mensagem de WhatsApp.
Uma nova etapa da “Vaza Toga” foi publicada em agosto de 2025 no site da organização Obras de Civilizaçãodo jornalista americano Michael Shellenberger. A informação foi obtida pelos jornalistas David Ágape e Eli Vieira. Segundo a publicação, a estrutura do TSE teria sido utilizada para apurar os atos de 8 de janeiro de 2023.
Em novembro de 2025, a Primeira Turma do STF tornou Tagliaferro réu por suposta violação de sigilo funcional, obstrução de investigação sobre organização criminosa, coação durante o processo e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
O ex-assessor saiu do Brasil e mora na Itália, alegando que corre risco por denunciar ações do ex-chefe. O governo brasileiro solicitou sua extradição em novembro do ano passado.
