À medida que o calendário eleitoral se aproxima, a oposição no Congresso Nacional intensifica esforços para avançar em questões consideradas prioritárias antes que a agenda legislativa seja esvaziada pelas campanhas. Entre os principais focos estão a derrubada do veto ao Projeto de Lei da Dosimetria (PL), a CPMI do INSS, a abertura da CPMI do Banco Master, além do impeachment de ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes.
A estratégia envolve concentrar esforços em temas de forte apelo político e institucional, ainda que o ambiente no Congresso seja marcado por dificuldades na formação de maiorias qualificadas, resistência do Executivo e tensão permanente com o Judiciário.
Com uma janela legislativa cada vez mais estreita, nem todas as agendas devem avançar formalmente. Ainda assim, a avaliação é que o esforço para orientá-los tem peso eleitoral e ajuda a consolidar discursos que devem marcar a próxima campanha.
Na opinião do senador Izalci Lucas, líder da oposição no Congresso, o momento exige uma postura mais firme do Congresso. “O Brasil precisa de ordem, ética e respeito à Constituição”, afirma o senador.
O líder da oposição na Câmara, deputado Cabo Gilberto (PL-PB), destaca que a principal pauta do Congresso é “resgatar o cumprimento da Constituição”. O parlamentar destacou ainda que a oposição fará esforços para “mostrar ao povo brasileiro que Lula prometeu e nada fez”. “Continuaremos firmes neste propósito de esclarecer à população sobre as promessas de campanha que não foram cumpridas”, disse. Gazeta do Povo.
Na avaliação do cientista político Alexandre Bandeira, a volta do recesso legislativo, em fevereiro, deverá ocorrer em um ambiente de tempo reduzido, mas de alta intensidade política, justamente por ser ano eleitoral.
Segundo ele, o calendário do Congresso será mais curto, mas não menos ativo. “Todos os parlamentares serão incluídos no contexto das eleições, o que reduz o tempo formal de votação, mas acelera o ritmo das decisões”, avalia.
Bandeira destaca que o perfil atual do Congresso favorece esse movimento. “Essa legislatura, tanto na Câmara quanto no Senado, tem um viés mais conservador, com propostas que giram majoritariamente em torno da direita brasileira”, afirma.
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Apesar de ter sido aprovada com ampla concordância, a proposta que trata da redução das penas a que foram condenados os envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023 – o PL dosimetria – retorna ao Congresso devido ao veto de Lula ao texto.
Após o veto presidencial em 8 de janeiro, o líder do Partido Liberal (PL), deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que, dada a previsibilidade do ato de Lula, o assunto já havia sido discutido entre os líderes no ano passado e que a oposição trabalha para derrubar o veto.
“Será derrubado na primeira sessão do Congresso”, afirmou Cavalcante ao ser questionado sobre a estratégia a ser utilizada pelos oposicionistas após o veto ao PL dosimétrico. A confiança do líder se deve ao fato de a proposta já ter sido aprovada com maioria absoluta nas duas Casas do Congresso. Assim, em tese, o veto já teria respaldo para a derrubada.
Para Bandeira, o veto de Lula foi motivado mais por cálculo político do que por divergência técnica, o que deve reacender o embate entre Executivo, Legislativo e Judiciário logo no início dos trabalhos.
No Senado, o senador Izalci Lucas (PL-DF) afirma que o tema está diretamente ligado à necessidade de pacificação nacional e correção de excessos judiciais. “Nossa prioridade como oposição é restaurar a transparência e a justiça no país. [Esta é] uma medida essencial para a pacificação nacional”, afirma.
Na Câmara, membros da oposição também começaram a trabalhar para derrubar os vetos presidenciais. A deputada Caroline De Toni (PL-SC) apresentou requerimento que pretende convocar reunião extraordinária para votação do veto. A iniciativa, porém, enfrenta obstáculos regulatórios, necessitando do apoio da maioria absoluta dos parlamentares para ser aprovada.
“O Congresso não pode abrir mão do seu papel. Continuaremos trabalhando para coibir abusos, conter excessos e devolver a previsibilidade institucional ao Brasil”, pontuou o deputado.
CPMI do INSS e CPMI do Master
Outro eixo central da atuação da oposição é o fortalecimento da fiscalização do Executivo, com destaque para a CPMI do INSS. A retomada dos trabalhos na comissão mista é vista como uma oportunidade para expor falhas estruturais e possíveis esquemas de corrupção envolvendo recursos previdenciários.
Segundo Izalci, já existem elementos suficientes para justificar novas investigações. “A CPMI do INSS é fundamental, porque já temos um diagnóstico preciso de como foram desviados bilhões de aposentados para lavagem de dinheiro”, afirma.
O senador acrescentou que a oposição pretende ampliar o escopo da investigação para incluir outros episódios envolvendo recursos públicos. “Vamos lutar para incluir nesse cálculo as perdas de mais de R$ 12 bilhões vinculadas ao relacionamento entre Banco Master e BRB [Banco de Brasília].”
No caso do Banco Master, a oposição também trabalha para abrir uma CPMI exclusivamente para investigar o assunto. O vice-líder da oposição na Câmara, deputado Carlos Jordy (PL-RJ), afirmou que já obteve assinaturas suficientes e aguarda a retomada dos trabalhos no Congresso, em fevereiro, para apresentar formalmente o pedido de abertura. CPMI do mestrado tem como objetivo apurar fraudes financeiras atribuídas ao banco.
Impeachment de ministros do STF e limites do Judiciário
O embate entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal parece ser um dos principais pontos de convergência da oposição. A pressão pelo impeachment de ministros da Corte deverá crescer e os parlamentares também defenderão o avanço de projetos que restrinjam decisões monocráticas e reforcem as competências do Legislativo.
A análise dos pedidos de impeachment de ministros da Corte também deverá permanecer no centro das atenções da bancada da oposição no Congresso. “O Senado deve cumprir o seu papel constitucional e exigir o impeachment dos ministros do STF para coibir o ativismo judicial e garantir o equilíbrio entre os Poderes”, afirma o senador Izalci Lucas.
Carlos Jordy afirma ainda que um possível processo de impeachment do ministro Alexandre de Moraes “é questão de tempo”. “Acredito que o impeachment de Moraes é natural e questão de tempo. Está cada vez mais claro para a sociedade que muitas vezes ele extrapola as quatro linhas da Constituição”, afirma Jordy.
Além disso, para a deputada Bia Kicis (PL-DF), a prioridade da direita deve ser justamente a agenda institucional relativa ao STF. “A direita deve priorizar questões relacionadas ao Supremo. Todos os tipos de projetos que visam combater o ativismo, as decisões monocráticas e a usurpação da competência do STF em relação ao Legislativo devem ser discutidos no Congresso”, afirma.
Entre as propostas que devem ser priorizadas estão a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8 e 28. “Precisamos avançar com projetos que restabeleçam limites claros entre os Poderes, como as PECs 8 e 28, propostas que reafirmem os poderes do Congresso e a proposta que estabeleça mandato para os ministros do STF”, afirma a deputada Caroline De Toni.
A PEC 8/2021 propõe limitar as decisões monocráticas no STF, o que exigirá que questões relevantes ou de efeitos gerais sejam analisadas pelo plenário da Corte e não apenas por um ministro. A PEC 28/2023 cria mandato por prazo determinado para ministros do STF e substitui o atual modelo de cargo até a aposentadoria compulsória aos 75 anos.
Nesse contexto, para o cientista político Alexandre Bandeira, o Congresso também deveria investir na atualização da Lei do Impeachment, em resposta às decisões monocráticas de Gilmar Mendes que questionavam a validade da legislação de 1950. “O Senado discute uma reformulação da lei do impeachment para criar, a partir de 2027, condições jurídicas e numéricas para que o tema volte à pauta”, explica.
Bandeira destaca ainda a sabatina de Jorge Messias no Senado, que quase aconteceu no final do ano e foi adiada. “Será um jogo novo, com possibilidade real de reprovação, seja na CCJ ou no plenário, em votações secretas”, acrescenta Bandeira.
A oposição também abordará segurança pública, escala 6×1 e questões indígenas
Outro eixo relevante, na avaliação do cientista político Alexandre Bandeira, será a segurança pública. Para ele, o projeto antifacção aprovado na Câmara, relatado pelo deputado Guilherme Derrite (PP-SP), terá um “segundo período” no Senado. “O governo deve tentar reconfigurar o projeto, principalmente no fortalecimento da Polícia Federal e na centralização das decisões”, afirma.
Ele destaca que os governadores, principalmente os de direita, trabalham para manter a descentralização e a divisão dos recursos decorrentes do combate ao crime organizado.
A PEC da Segurança Pública, de autoria do agora ex-ministro Ricardo Lewandowski, também deverá enfrentar resistências. “As associações policiais e os governadores rejeitam a concentração de poder no governo federal”, afirma.
Além disso, Bandeira destaca que o governo deve trazer para o debate temas como a escala 6×1 e a demarcação de terras indígenas, reacendendo as disputas ideológicas. “São questões que mobilizam direita e esquerda e devem aquecer o início do ano político”, avalia.
Para o cientista político, 2026 começa com um cenário de intensos confrontos. “Os assuntos são muitos, as agendas são diversas, mas haverá uma clara concentração de interesses de direita nestes projetos. O ano político começa quente, intenso e com forte potencial de conflito institucional”, conclui.
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