Oposição recua e aceita ‘anistia light’ para acelerar votação



A possibilidade de prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, após a rejeição de seus primeiros recursos no Supremo Tribunal Federal (STF), fez com que a oposição mudasse de estratégia e sinalizasse um acordo para aprovar uma versão mais branda do projeto de anistia. O recuo ocorre diante da avaliação de que algo precisa ser votado imediatamente, antes que a situação jurídica de Bolsonaro se agrave ainda mais.

O movimento intensificou a pressão sobre o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que afirmou nesta segunda-feira (17) que pretende retomar a discussão da proposta em novembro. “O deputado Paulinho da Força está finalizando o seu texto para que possamos discuti-lo com o colégio de dirigentes e apresentá-lo no plenário. [O projeto] deve ser discutido novamente nos próximos dias”, disse Motta em entrevista à CNN Brasil.

A mudança de posicionamento coincide com a publicação, pelo STF, da ata que confirma a rejeição unânime dos primeiros embargos da defesa de Bolsonaro. A decisão — que detalhará os votos dos ministros Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Cármen Lúcia — foi publicada nesta terça-feira (18) e deu início à contagem dos prazos de recurso.

Após a publicação da decisão, haverá um prazo de cinco dias, a partir desta quarta-feira (19), para que as defesas apresentem segundos embargos de declaração. Esse prazo termina na noite de domingo (23).

Caso sejam apresentados segundos embargos, o relator, ministro Alexandre de Moraes, poderá decida sobre eles de forma monocrática (sem levá-los à Câmara para deliberação). A partir de segunda-feira (24), Moraes poderá analisar os recursos ou considerá-los meramente atrasados. Ou seja, ele poderá entender que os recursos não têm conteúdo jurídico, a não ser a intenção de adiar a execução da pena.

Se Moraes rejeitar os recursos, poderá declarar encerrado o julgamento (definitivo, no jargão jurídico) e ordenar a execução da pena. Cabe ao ministro notificar o Tribunal de Execuções Penais para enviar os condenados à prisão.

A oposição está pressionando por uma votação do projeto de anistia em novembro

No final de outubro, os líderes do Centrão já admitiam pressão da oposição para reabrir o debate sobre a anistia. Com a aproximação da possível prisão de Bolsonaro, o movimento ganhou força —principalmente entre os parlamentares que defendem que o texto seja votado ainda este mês.

O líder da oposição, Luciano Zucco (PL-RS), afirmou que o compromisso de discutir o assunto este ano já foi discutido com a presidência da Câmara. “Estamos conversando com o presidente Hugo Motta. Ele sabe que é importante virarmos esta página. Há o compromisso de que o tema seja votado até o final do ano”, disse Zucco.

O deputado Domingos Sávio (PL-MG) sinalizou que a bancada do PL ainda “luta por uma anistia ampla”. “Temos que lutar pela anistia para Bolsonaro e centenas daqueles que vieram para Brasília sem arma para defender suas convicções. Muitos já estão presos, outros aguardando a guilhotina, outros estão autoexilados.

Na mesma linha, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) cobrou celeridade na votação. “Me coloco na posição de mães e pais que veem seus familiares serem condenados a 17 anos. Isso não é proporcional. Justiça fora do prazo é injustiça. A oposição está imbuída da intenção de que a anistia passe ainda este mês”, afirmou.

Apesar da pressão por uma anistia ampla, líderes do partido de Bolsonaro já admitem nos bastidores que a medida não teria apoio suficiente para avançar na Câmara e poderia ser rejeitada pelo Senado. Nesse cenário, a bancada partidária do ex-presidente já sinalizou que votará pela aprovação do PL da Dosimetria, batizado de “anistia light”.

Relator diz que já tem votos; votação depende do clima político

O texto original, que está sendo relatado por Paulinho da Força (Solidariedade-SP), foi apresentado por Marcelo Crivella (Republicanos-RJ) e previa anistia total e irrestrita aos condenados pelos atos de 8 de janeiro, incluindo:

  • perdão total das sentenças;
  • extinção dos efeitos das condenações;
  • cancelamento de antecedentes criminais;
  • retorno imediato à vida pública;
  • chegar a Bolsonaro e aos militares condenados por participação na trama golpista.

Paulinho da Força, porém, reformulou completamente o projeto e o transformou no PL Dosimetria, considerado uma “anistia leve”. A versão atual:

  • não extingue convicções;
  • não devolve direitos políticos;
  • reduz as penas aplicadas pelo Poder Judiciário;
  • beneficia apenas réus sem papel central nos ataques.

Em reuniões recentes, Paulinho indicou que o novo texto poderá permitir a saída de alguns condenados do regime fechado. Para o grupo central —Bolsonaro e outros sete condenados pelo STF—, haveria apenas uma redução parcial da pena, sem eliminar o cumprimento de parte da pena de prisão em regime fechado.

No caso de Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses, a exigência de cumprimento inicial da pena ainda permaneceria, mesmo após qualquer nova dosimetria. Nos cálculos do relator, o projeto teria o apoio de 330 a 350 votos para ser aprovado, uma margem confortável acima dos 257 necessários. Paulinho da Força disse à imprensa que a votação deverá ocorrer após o PL Antifacção, aprovado na terça-feira (19).

Hugo Motta, porém, tem enfatizado a necessidade de consenso entre Câmara e Senado para evitar erosão semelhante à da PEC da Blindagem, derrubada pelo Senado. “A proposta precisa ser construída em conjunto, para evitar desgastes. O objetivo é buscar uma solução equilibrada para os casos em que as penalidades foram aplicadas de forma desproporcional”, afirmou.

A bancada do PT, por sua vez, fechou posição contra qualquer avanço. “A posição da bancada petista é unânime contra o projeto de anistia e contra a revisão de penas, especialmente de Bolsonaro e dos militares que participaram da trama golpista”, disse o líder do partido, Lindbergh Farias (RJ).



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