
A idéia de que o Supremo Tribunal Federal (STF) está atuando fora dos limites legais nos últimos anos já é tratado como verdade evidente em grande parte da população, conforme atestado em pesquisas de opinião recentes.
Medidas anteriores de censura, pesquisas abusivas e atos com um viés político claro contribuíram para reforçar a opinião de que o tribunal é responsável pela erosão da democracia no Brasil. Quase metade dos brasileiros acredita que o país vive sob uma ditadura do judiciário, de acordo com uma pesquisa da Atlas/Bloomberg da Augua.
Por outro lado, a elite do poder estatal e parte da esquerda justificam as medidas do Supremo como Atos para salvar instituições democráticas. O ministro Luís Roberto Barroso, que presidiu a Suprema Corte, geralmente fala no caráter “civilizador” das ações da corte. “O processo civilizador existe para reprimir o mal e melhorar o bem”, disse ele recentemente na sessão de abertura do trabalho da segunda metade de 2025.
O Gazeta do Povo Ele perguntou a especialistas que refletiam a liberdade de expressão e a democracia se ainda existe alguma maneira possível de reconciliar grupos com visões tão opostas sobre a liberdade de expressão. Para eles, há um problema de fundo que precisa ser resolvido: a fragilidade da cultura democrática no Brasil.
Pablo Ortellado, professor de gerenciamento de políticas públicas da USP, é diretor executivo da More in Common Brasil, uma ONG cuja missão é ajudar a sociedade a resgatar a se concentrar em valores compartilhados.
Para ele, o protagonismo judicial acabou gerado um ciclo vicioso. “A Suprema Corte assume que o direito está atacando as instituições e reprime com dificuldade; a dura repressão faz as pessoas criticarem a Suprema Corte, que justifica outra ação dura. Isso é em uma espiral crescente. E é isso que precisa ser interrompido, na minha opinião”, diz ele.
A falta de transparência do Supremo, de acordo com o especialista, agrava esse ciclo. Ele critica, por exemplo, a ausência de números consolidados sobre a extensão dos bloqueios de perfil nas redes sociais. Recentemente, o Gazeta do Povo Ele pediu esses dados da Suprema Corte, mas não obteve resposta.
“Acho isso muito preocupante. Você não foi o primeiro. Folha já fez solicitação, a UOL fez solicitação e eles se recusaram há muitos anos. Não sabemos quantas contas foram excluídas, porque esses processos são confidenciais”, diz ele.
Para Ortellado, em muitos casos, o que o STF faz é a censura anterior. “Acho isso muito problemático porque estamos em um processo obviamente controverso. Há pelo menos 40% do Brasil que questiona esse processo. Esse pedaço do Brasil precisa ter uma voz. As pessoas sendo acusadas precisam ter uma voz no debate público para apresentar sua defesa”.
Em um ambiente de tais restrições de discurso, a perda de legitimidade social do judiciário é inevitável, diz ele. “A justiça não pode ser vista como parcial. E o fato de ser visto como parcial por grande parte da população deve ser motivo de preocupação, porque esses processos devem ter a menor legitimidade social. O judiciário precisa entender que defende a democracia mais técnica, mais sóbria e mais equilibrada”.
O Brasil tem poucos anticorpos contra a censura porque a liberdade de expressão não está enraizada na cultura, diz especialista
Pedro Franco, mestre em história social da cultura da PUC-Rio e em estudos interdisciplinares da Universidade de Nova York, identifica uma dinâmica perigosa em andamento no Brasil. “A estrutura constitucional do Brasil permitiu que a Suprema Corte crescesse de tal maneira que se tornou uma superpotência. Ele pode fazer o que quiser. Se você montar uma entidade institucional com o poder de fazer o que quiser com uma cultura que não criou anticorpos contra a censura, cria uma combinação meio explosiva”, diz ele.
Para Franco, o Brasil tem pouca proteção contra a censura porque a liberdade de expressão não está enraizada na cultura, nem do ponto de vista institucional ou nas relações sociais cotidianas. Diante de desacordo, é comum no Brasil a idéia de que é necessário punir o outro lado e não convencê -lo, diz ele.
“Às vezes, a pessoa tem a impressão de que não há agência para mudar a direção das coisas que acontecem na Brasília ou nos altos níveis de poder, mas há uma coisa que está ao seu alcance, que é punir o vizinho que discorda dela, ou o tio que tem uma opinião diferente.
Segundo ele, essa perspectiva revela uma falta de entendimento do que é viver em uma democracia. “Em um regime democrático, você, como cidadão, mesmo quando não está influenciando diretamente o poder de Brasília, tem muito poder para se exercitar em sua vida diária, em suas discussões, nos debates políticos que você tem em sua vida. Mas você não pode exercer esse poder ao desligar, mas convencer as pessoas, usando argumentos e razão para dizer por que sua visão faz mais sentido do que a visão da outra pessoa.
Isso só pode ocorrer dentro de um relacionamento pessoal com base na confiança, ele ressalta. “A persuasão menos eficiente que existe é bloquear uma pessoa, porque o efeito mais provável disso é torná -las mais arraigadas ao seu lado”.
Para Franco, seria difícil incentivar a cultura democrática no Brasil, construindo raciocínio sobre seus benefícios sociais. Uma maneira melhor, segundo ele, é que a cultura democrática é articulada para uma ética das virtudes. “O objetivo da boa sociedade não é apenas gerar debate de idéias, é gerar um ser humano virtuoso. E o ser humano virtuoso, por sua vez, é o que gera uma sociedade virtuosa”, diz ele. “Se você convencer as pessoas de que certos bons comportamentos para a democracia também são bons para sua alma, esse pode ser um instrumento poderoso para convencer as pessoas a se despolarem”, explica ele.
Pablo Ortellado considera que um bom ponto de partida para reduzir a desconfiança entre grupos com diferentes visões de mundo seria a capacidade de reconhecer que pode haver boa fé nos dois lados. “Espero que as visões de mundo não sejam irreconciliáveis”, diz ele. Para ele, apenas desse reconhecimento mútuo será possível discutir os limites da liberdade de expressão “de uma maneira mais qualificada” e fazer leis para o mundo digital com calibração adequada.
