A decisão do ministro Flávio Dino, da Suprema Corte Federal (STF) de proibir a solicitação no Brasil de decisões judiciais e leis estrangeiras que não são validadas por acordos internacionais ou endossadas pelo Tribunal Brasileiro, colocou os bancos brasileiros diante de uma “escolha de Sofia”: cumprir a determinação do tribunal ou simplesmente “quebrar”, se fracassarem.
Mesmo antes da decisão de Dino, os bancos já estavam lutando para cumprir o alcance da lei. A percepção inicial das instituições brasileiras foi que Moraes, sancionada pelos Estados Unidos em 30 de julho, estaria sujeita basicamente a três consequências principais: proibição de viajar para os EUA, congelando mercadorias no território americano e impossibilidade de realizar transações econômicas com empresas americanas.
Isso indicaria que apenas as operações em dólares seriam imediatamente vetadas, como o uso de cartões de crédito de bandeira americana ou contas e investimentos em bancos que atuam nos Estados Unidos.
Com a nova determinação de Dino, que gerou perplexidade e convulsão, o impasse ganhou novas proporções. A expectativa é iminente para expandir as sanções do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Tesouro Estrangeiro (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros – OFAC), responsável pelo gerenciamento do regime, combinado com o aumento da inspeção no cumprimento das determinações. Também é esperado que estenda as medidas à esposa e à família de Moraes. Os bancos, portanto, precisarão estar claramente posicionados em relação às duas determinações.
Isso significa correr riscos. Há uma enorme interdependência entre os sistemas financeiros brasileiros e americanos. As instituições nacionais operam e têm subsidiárias no exterior. Quando estabelecem relacionamentos para serviços – como transações internacionais, financiamento ou pagamentos em dólares – precisam assinar contratos e se comprometer a seguir os órgãos internacionais, com base especialmente na legislação americana. Se eles falharem, podem sofrer multas ou quebrar contratos.
“Não se trata de não cumprir a lei de Magnitsky, mas de enfrentar os males decorrentes dessa escolha”, diz a constitucionalista Vera Chemim. “No caso de os bancos decidirem enfrentar a decisão de Flávio Dino, caso contrário, eles são enquadrados em um crime contra a soberania nacional, eles fecharão suas portas, pois a maioria de suas transações envolve o sistema americano”.
O advogado constitucionalista André Marsiglia acredita que a decisão das instituições deve ser pragmática. “É uma situação que nem é legal, mas lógica, porque, por não cumprir o Magnitsky, existe uma possibilidade real de que os bancos tenham cortado seu relacionamento com o sistema financeiro dos EUA. Eles são totalmente dependentes desse relacionamento”, diz ele. “Eu imagino que eles escolherão cumprir a legislação americana e, mesmo mais uma vez, levar o tribunal a desacreditar – um desacredito que o próprio tribunal forneceu”.
Para Gabriel Santana, fundador do grupo GSV, muitos bancos devem recorrer ao judiciário e demonstrar a obrigação de cumprir a lei americana. “Eles farão isso sob penalidade de tornar inviável manter cada entidade”, diz ele.
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A atenção é focada principalmente no Banco Do Brasil, que gerencia parte da folha de pagamento do STF. Banco Público de Cabos Públicos, o BB possui operações nos Estados Unidos e no mercado de ações. Se você não cumprir uma determinação do OFAC, precisará fechar sua operação nos EUA.
Há também um risco de multas. A experiência mostra que o Departamento do Tesouro e o Departamento de Justiça dos EUA não hesitam em aplicar fortes punições a instituições financeiras que tentam contornar as sanções. Embora as sanções aplicadas pela OFAC com base na lei de Magnitsky não tenham sido diretamente aos bancos, eles chegaram a um corretor e a indivíduos que violaram sanções.
Nos Estados Unidos, o Interactive Brokers LLC Foi multado em US $ 11,83 milhões em julho de 2025 por violações de diferentes programas de sanção – incluindo negociações de ativos de entidades ligadas ao regime global de Magnitsky. Em dezembro de 2024, a OFAC aplicou uma multa de US $ 45,1 mil a um indivíduo para seis transações em favor de uma pessoa bloqueada.
A decisão de Dino não cita diretamente Magnitsky. Ela foi emitida em uma ação que questionou na Suprema Corte um processo movido na Inglaterra pelas vítimas da violação da barragem de Mariana (MG), em 2015, contra as empresas de mineração Vale e BHP. O caso começou a partir da ação do Instituto de Mineração Brasileira (IBRAM), que alegou ser inconstitucional a contratação de escritórios estrangeiros por municípios brasileiros para trabalhar no exterior. A tese foi aceita por Dino e confirmada pelo supremo plenário em 2023. Agora Dino reiterou que decisões e leis estrangeiras não podem ser aplicadas no Brasil sem aprovação.
Em uma nota enviada ao relatório, o Banco do Brasil afirmou que age de acordo com a lei brasileira, os padrões e regras internacionais dos países onde está presente. A instituição também reforçou seu compromisso com a governança, integridade, segurança financeira e soluções responsáveis e sustentáveis. Confira a nota completa:
O Banco Do Brasil atua em total conformidade com a lei brasileira, as regras de mais de 20 países onde está presente e os padrões internacionais que governam o sistema financeiro. Com mais de 80 anos de experiência no exterior, a instituição acumula uma sólida experiência em relações internacionais e está preparada para lidar com temas complexos e sensíveis que envolvem regulamentações globais. O banco sempre segue esses assuntos cuidadosamente e possui aconselhamento jurídico especializado para garantir o desempenho alinhado com as melhores práticas de governança, integridade e segurança financeira. A BB reforça seu compromisso de oferecer soluções responsáveis, seguras e sustentáveis para todo o seu público de relacionamento.
Dino levou “Coelho da Cartola”
Na avaliação de Marsiglia, Dino aproveitou uma ação que não tinha nada a ver com a história ”, em uma reação combinada entre os membros do STF.” Ele [Dino] Ele tirou um coelho da cartola para abordar esse assunto “, diz ele.” Minha leitura é que Zanin provavelmente teve ou teve coragem, digamos, para tomar uma decisão [sobre as ações em curso]. ”
A estratégia, de acordo com o constitucionalista, pode ter que evitar um confronto mais direto com os EUA, mas o resultado é duvidoso. “Eu realmente duvido que os ministros sejam ou tenham se comportado ingenuamente ou se têm alguma estratégia por trás disso”, diz ele.
“Eu tenho usado a seguinte imagem: quando você encontra um urso na selva e sabe que não pode executá -la ou enfrentá -la, grita para ver se ele a vira, fica com medo, se cansa de você e fará outra coisa”.
Os Estados Unidos, no entanto, parecem não desviar o foco de Moraes. Em uma publicação no X, na segunda-feira (18), o Escritório do Hemisfério Ocidental da declaração do Departamento de Administração do Estado mencionou o caso do ministro e disse que os tribunais estrangeiros não podem invalidar as sanções impostas pelos EUA.
“Alexandre de Moraes é tóxico para todas as empresas e indivíduos legítimos que buscam acesso aos EUA e seus mercados. Nenhum tribunal estrangeiro pode invalidar as sanções dos EUA-ou salvar alguém das sérias conseqüências de violá-las”, disse ele.
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Soberania institucional e dependência financeira
Em sua decisão, Dino justificou a necessidade de reagir às ameaças à soberania nacional. Segundo ele, o cenário piorou “especialmente com o fortalecimento das ondas de força de algumas nações em outras”. “Com isso, na prática, os postulados essenciais do direito internacional foram agredidos. As instituições multilateralismo são absolutamente ignoradas”, disse ele. “Nesse contexto, o Brasil tem sido alvo de várias sanções e ameaças, que visam impor pensamentos a serem ratificados apenas pelos órgãos que exercem soberania nacional”.
Para Santana, o caso expõe a fragilidade das economias interconectadas, “nas quais as leis de um país têm efeitos diretos em outro”. “O desafio agora é equilibrar a defesa da autonomia legal com a necessidade prática de manter o Brasil integrado ao sistema financeiro internacional”, diz ele.
A soberania do sistema brasileiro também é destacada pelo advogado Massami Uyeda Júnior, sócio da Arap Nishi Uyeda. “A decisão do ministro apenas coloca o seguinte: ‘Meu país é meu país, seu país é o seu país.’ Se você deseja aplicar sanções ou decisões judiciais, você deve seguir um rito.
No entanto, ele alerta sobre a retaliação que deve seguir. “O problema dos bancos é que eles terão milhões, bilhões de dinheiro bloqueados nos Estados Unidos, um problema sério”, diz ele. “Eles são expostos a uma retaliação preliminar, que pode ser contestada. Mas até explica o que é uma coisa ou outra, isso levará. [eles] Eles vão perder muito dinheiro. E o dinheiro fala mais alto. ”
