STF tenta se blindar ante risco de direita dominar Senado em 2026


A capacidade da direita de mobilizar o Congresso para aprovar a urgência da anistia aos condenados em 8 de janeiro de 2023 e o sucesso do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) em submeter Alexandre de Moraes a sanções nos Estados Unidos fizeram soar o alarme entre os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Membros do Tribunal com maior sensibilidade política veem como cada vez mais provável que a direita ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro conquiste a maioria dos assentos no Senado nas eleições de 2026 e, como resultado, eleja um presidente da Câmara disposto a abrir processos de impeachment contra ministros.

Em setembro, no mesmo dia em que o reitor do Tribunal, Gilmar Mendes, afirmou que o STF não aceitaria impeachment contra um ministro por suas decisões, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e o partido Solidariedade ajuizaram ações semelhantes no STF para dificultar o processo no Senado.

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O Solidariedade – do deputado Paulinho da Força (SP), que articula com os ministros a redução de penas para os condenados de 8 de janeiro, em vez da anistia – propôs a mesma tese de Gilmar: que o STF proíba o Senado de iniciar processos de impeachment contra ministros em razão de decisões, votos e pareceres na função judiciária.

As ações da AMB e do Solidariedade foram direcionadas a Gilmar Mendes, sem empate, porque também tratam de outros temas sobre os quais o ministro atua como relator no STF.

Mas, além desse “antídoto” contra um possível impeachment, outros movimentos de autoproteção ganharam força no STF nas últimas semanas.

Gilmar Mendes também articula a aprovação de uma lei para proteger autoridades e empresas brasileiras da Lei Magnitsky, que já impôs severas restrições financeiras a Alexandre de Moraes e agora pode afetar o próprio reitor.

Moraes, por sua vez, acelerou uma investigação que pode condenar criminalmente Eduardo Bolsonaro e, além disso, torná-lo inelegível.

Por fim, Flávio Dino comanda processos que tocam no principal interesse do Centrão, que domina o Congresso: a liberação de emendas parlamentares pelo Governo Federal. Os recursos são ativos políticos fundamentais para que deputados e senadores obtenham apoio em suas bases eleitorais para serem reeleitos em 2026.

Até agora, apesar de vitórias ocasionais, a direita sofreu reveses. A Câmara aprovou a urgência da anistia, mas o projeto agora é de “dosimetria”, para redução de penas, e ainda não há previsão de aprovação.

O ex-presidente Jair Bolsonaro poderia se beneficiar de uma pena menor, que poderia cumprir em casa, mas é provável que não dispute mais eleições.

Sob pressão do STF, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), derrubou a nomeação de Eduardo Bolsonaro, que está nos EUA, para a liderança da Minoria, o que lhe permitiria pagar as ausências e manter o mandato.

Diante dessa situação, lideranças de direita admitem a dificuldade em barrar o STF. Para o senador Rogério Marinho (PL-RN), a eleição de 2026 será a única forma de restabelecer o equilíbrio entre os poderes. Ele é um dos principais articuladores da estratégia da direita de obter maioria no Senado para acabar com a hipertrofia do Judiciário.

“O STF tem que adotar uma posição inerte, reativa, e não se antecipar às questões”, disse o senador ao Gazeta do Povoquando questionado sobre as recentes medidas do Tribunal para manter o seu poder institucional e político.

Neste relatório, resumimos e atualizamos as últimas ações tomadas pelos ministros em cada um destes movimentos de autoproteção.

STF contra impeachment de ministros

As ações da AMB e do Solidariedade para dificultar o impeachment de ministros foram protocoladas no dia 16 de setembro no STF. No dia seguinte, Gilmar Mendes pediu manifestações ao Senado, à Câmara e à Presidência da República sobre o assunto. Depois, você consultará a Advocacia-Geral da República (AGU) e a Procuradoria-Geral da República (PGR).

A tramitação acelerada visa preparar o processo para decisão liminar, proferida em caráter de urgência, avaliando o perigo de dano e a plausibilidade do pedido.

Além de vetar pedidos de impeachment com base em decisões, o Solidariedade propôs que apenas a PGR possa denunciar ministros por crimes de responsabilidade. O partido ainda quer que o afastamento do ministro durante o processo ocorra apenas com a votação de dois terços do Senado (54 votos) e não por maioria simples (41).

No dia 25, o Senado enviou parecer contrário às mudanças propostas. Defendeu a manutenção da possibilidade de qualquer cidadão denunciar um ministro no Senado, em função do princípio republicano, “permitindo o controle social do exercício do poder”. “O controle do exercício do poder pelos cidadãos constitui o exercício legítimo de direitos políticos garantidos constitucionalmente, faz parte da tradição constitucional brasileira e se enquadra no sistema de freios e contrapesos garantidos constitucionalmente”, diz o parecer, assinado por advogados do Senado.

Sobre a possibilidade de denunciar um ministro por suas decisões, a Câmara argumentou que o processo de impeachment “não tem por objetivo rever ou punir decisões judiciais, mas sim conduta grave de desvio de função ou abuso, caracterizada por lei como crime de responsabilidade”.

Na terça-feira (7), a Presidência da República enviou ao STF parecer neutro sobre as alterações propostas, descrevendo apenas o procedimento estabelecido pela lei do impeachment e os pedidos apresentados pelo Solidariedade e pela AMB.

Lei anti-embargo para proteger Moraes

Em setembro, Gilmar Mendes revelou que discute com o Governo Federal e alguns parlamentares a formulação de uma lei antiembargo, para tentar proteger as autoridades e empresas brasileiras de sanções internacionais.

É uma resposta direta à aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes e à revogação de vistos pelas autoridades brasileiras.

Embora não haja confirmação oficial, circula nos bastidores do Judiciário informações não confirmadas de que oito ministros do STF já tiveram seus vistos para os EUA cassados. O jornalista Paulo Figueiredo, que atua junto com Eduardo Bolsonaro a favor das sanções, disse que agora trabalha para que Gilmar Mendes seja sancionado na Magnitsky.

Gilmar Mendes afirmou que o projeto terá como base uma decisão de agosto de Flávio Dino que proibiu empresas brasileiras de cumprir sanções estrangeiras sem aprovação prévia do Judiciário no Brasil. Na prática, bancos e empresas com operações nos EUA – que poderiam sofrer sanções secundárias, como multas – ver-se-iam sob pressão para não cortarem serviços a Moraes e outros que possam ser sancionados.

No STF, Flávio Dino já marcou audiência pública para diversas entidades interessadas discutirem sua decisão – proferida no âmbito de um processo à parte, relacionado a ações judiciais em que municípios mineiros abriram processo na Justiça britânica para receber indenizações de mineradoras pelo acidente em Mariana (MG).

Analistas dizem que a lei tende a ser ineficaz. Isso porque, diante do risco de serem duramente punidas nos EUA, as empresas tenderiam a cortar relações com as sancionadas no Brasil. Dentro do STF, porém, a ideia é que, com uma decisão judicial no país determinando a manutenção dos serviços de Moraes, empresas e bancos seriam obrigados a recorrer à Justiça americana para derrubar a sanção.

Na prática, o STF transferiria o ônus da proteção de Moraes no Brasil para as empresas.

STF contra Eduardo Bolsonaro

Para tentar fazer Eduardo Bolsonaro recuar na pressão sobre autoridades americanas por mais sanções contra ministros do STF, Alexandre de Moraes, já sancionado pela Lei Magnitsky, acelerou o ritmo de uma investigação que abriu, a pedido do PT e da Procuradoria-Geral da República (PGR), para condenar o deputado.

Em menos de cinco meses – pouco tempo, levando-se em conta o padrão das investigações do STF –, a Polícia Federal investigou o deputado, indiciou-o e deu à PGR elementos para denunciá-lo por coação à Justiça. Ele tem até meados de outubro para responder às acusações. Depois, Moraes poderá solicitar ao presidente da Primeira Turma do STF, Flávio Dino, uma data para o colegiado analisar a denúncia.

Neste julgamento, Moraes, Dino, Cármen Lúcia, Luiz Fux e Cristiano Zanin poderiam tornar o deputado réu em processo criminal. Ao final do processo criminal, ele pode ser condenado e, portanto, tornar-se inelegível. A inelegibilidade também poderá ser determinada caso a Câmara casse seu mandato por faltas, o que poderá ocorrer mais cedo.

No dia 29 de setembro, Moraes determinou que a PGR avaliasse um pedido dos deputados Lindbergh Farias (PT-RJ) e Talíria Petrone (PSOL-RJ) para a prisão preventiva de Eduardo Bolsonaro e também solicitou que o STF ordene à Câmara a suspensão de seu salário e financiamento do cargo e a abertura de processo para cassação de seu mandato.

STF controla emendas parlamentares

Desde o ano passado, Flávio Dino dosa a divulgação de emendas parlamentares repassadas sem transparência por deputados e senadores a estados e municípios. Este ano, determinou que a Polícia Federal abrisse investigações sobre suspeitas de peculato, aproveitando a transferência oculta de recursos.

Para liberar o dinheiro, o ministro exigiu a identificação obrigatória do parlamentar que indicou cada emenda; rastreabilidade completa até aos beneficiários finais dos fundos; apresentação de projetos para aplicação de recursos; proibição de alocações cruzadas, de modo que um parlamentar não possa alocar recursos a outros estados que não o seu; além da obrigatoriedade de transparência para as ONGs que recebem os recursos.

As medidas geram insatisfação no Congresso, uma vez que as emendas parlamentares passaram a ser o principal objeto de interesse de deputados e senadores. Nos últimos anos, o Legislativo tem procurado dotar todos os parlamentares de uma determinada quantia de recursos, mas os políticos mais poderosos e influentes recebem mais – daí a necessidade que sentem de esconder os montantes que têm o direito de indicar.

No STF, Dino tem recebido apoio para ir além do controle da transparência, para discutir também o volume de recursos. Este mês, em ação envolvendo emendas estaduais na Paraíba, Alexandre de Moraes determinou que o valor destinado a eles não ultrapassaria 1,55% da receita corrente líquida. Este é um precedente que poderia ser usado por Dino para limitar emendas federais.



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