
A defesa do ex-assessor especial para Assuntos Internacionais do ex-presidente Jair Bolsonaro, Filipe Martins, apresentou suas alegações finais ao Supremo Tribunal Federal (STF) neste sábado (11). Em 381 páginas, os advogados pedem a anulação de todo o processo, questionam a atuação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e refutam as acusações de que o réu participou de uma suposta trama golpista e tentou fugir para os Estados Unidos.
Na peça, eles defendem a suspeição dos ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e também do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Além disso, apontam diversas irregularidades processuais, incluindo a restrição da defesa pela negação do pleno acesso às provas.
Suposta viagem e “fuga”
Moraes mandou prender Filipe Martins após a Polícia Federal acusá-lo de tentar fugir para os Estados Unidos, ao participar de uma viagem feita por Bolsonaro e outros assessores em dezembro de 2022. O fato é que Martins não viajou com o ex-presidente em dezembro de 2022. Mesmo assim, ele ficou preso preventivamente por seis meses em Curitiba, entre fevereiro e agosto de 2024, e segue até hoje em prisão domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica pulseira e medidas cautelares abusivas, como a proibição do uso de redes sociais.
No documento de alegações finais, a defesa aponta a falta de provas de que Martins tenha atuado no suposto plano golpista e destaca que o próprio Estado norte-americano confirmou que Filipe Martins não entrou no país em dezembro de 2022. Ou seja, a alegação de fuga não é razoável e a prisão é ilegal. A defesa destacou ainda que a defesa já havia apresentado provas de que Martins estava no Brasil e, mesmo assim, a PGR teria mantido o pedido de prisão.
“O principal elemento que revela o comportamento suspeito dos membros da Procuradoria-Geral da República é o facto de conhecerem a geolocalização do Réu desde outubro de 2023, mas manifestaram a sua opinião na sua detenção e manutenção, ainda assim, considerando-se posteriormente ‘esclarecidos’ pela mesma geolocalização a que já tinham tido acesso, quando a Defesa Técnica se esforçou para a obter após a detenção – também afetou o desconhecimento dos dados”, destacam Jeffrey Chiquini e Ricardo Scheiffer Fernandes, advogados de Martins.
Indeferimento da defesa de Filipe Martins
Questionam também o fato de Moraes ter demitido a defesa de Martins após solicitar esclarecimentos sobre novos fatos incluídos pela PGR na fase final do processo, o que é ilegal e viola o amplo direito de defesa.
Após a repercussão negativa do caso e a publicação do comunicado do governo americano sobre a fraude em documentos que apontavam a falsa entrada de Martins nos EUA, Moraes voltou atrás e, na sexta (10), deu 24 horas para a defesa apresentar as alegações finais – o que aconteceu neste sábado.
Chiquini e Scheiffer afirmam que a apresentação de novas provas no processo foi um “truque na manga” que viola a lealdade processual e representa uma “inovação acusatória tardia”. Segundo eles, Moraes fez vista grossa às irregularidades cometidas pela PGR. “Como se não bastasse, também dispensou os advogados, afirmando que tinham ‘perdido o prazo’, o que era falso”, continuam.
A visão dos advogados é compartilhada, por exemplo, pelo ex-procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol. “Moraes decidiu de uma vez por todas ser bárbaro, atropelando o devido processo legal e violando um direito básico de defesa: o direito do réu de escolher seu advogado”, afirmou Dallagnol na Gazeta do Povo.
Suspeita e preconceito de Moraes em relação à “Primeira Classe”
Além disso, segundo os advogados, Alexandre de Moraes é suspeito do julgamento. Justificam que o Ministério Público alega que o suposto “projeto golpista” previa a prisão do relator do caso. “É claro que nenhum julgamento será conduzido com imparcialidade quando o magistrado também afirma ser a própria vítima. Mais do que claro, é o óbvio”, afirmam.
O ministro Flávio Dino é considerado suspeito pela defesa devido a “manifestações públicas” nas quais “declara animosidade”. Já Zanin é suspeito, na opinião dos advogados, pelo fato de ter atuado como advogado em processos com denúncias contra o réu, antes de se tornar ministro do STF.
Devido a este e outros factos, incluindo condutas abusivas por parte da autoridade policial, os advogados de Filipe Martins pedem a anulação total da investigação e do processo.
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Chiquini e Scheiffer solicitam ainda que, por Martins não ter foro privilegiado, a Primeira Turma do Tribunal se declare incompetente e que o processo seja transferido para a Justiça Federal do Distrito Federal, onde seria redistribuído para uma das varas criminais. Em caso de negação da distribuição, os advogados solicitam alternativamente que o caso seja analisado pelo plenário do STF, sob relatoria de outro ministro.
Ou seja, a defesa de Filipe Martins pede que Moraes seja afastado do caso e que o julgamento ocorra em outra instância.
Os advogados de Marcelo Câmara também foram demitidos, reintegrados e apresentaram alegações finais
A defesa do ex-assessor Marcelo Câmara – que, assim como Filipe Martins, é acusado de participar da suposta “conspiração golpista” – também apresentou alegações finais neste sábado (12). Num documento de 147 páginas, destacam que não há provas suficientes e, tal como os seus colegas que defendem o outro arguido, pedem a nulidade do processo.
As denúncias, assim como Chiquini e Scheiffer, defendem a incompetência do STF no julgamento, que deveria ser realizado por outra instância.
Em relação ao ministro Alexandre de Moraes, a defesa critica o relator do caso, alegando impedimento por parcialidade, pois seria “parte” no processo. Há acusação de que Marcelo Câmara participou de “monitoramento direcionado” ao ministro.
A peça destaca ainda que o acusado atuou apenas como assessor especial, responsável por funções administrativas e coordenação da agenda do ex-presidente, sem participar de atividades de inteligência, negando inclusive a existência de um “núcleo paralelo de inteligência” no qual tenha atuado.
A peça ressalta ainda que todo o material coletado durante o processo demonstra ausência de dolo ou participação em atividades ilícitas por parte de Marcelo Câmara. Os advogados admitem mesmo que o arguido tenha realizado pesquisas através de fontes abertas para “ajustar agendas” e “organizar atividades do gabinete presidencial”, mas nega veementemente qualquer caráter ilícito ou conspiratório.
