
O plenário do Senado rejeitou nesta quarta-feira (29) a indicação do procurador-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF), em uma derrota histórica para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Messias recebido 34 votos a favor e 42 contra.
Foram necessários pelo menos 41 votos a favor entre os 81 senadores. Desde a criação do STF, há 135 anos, apenas cinco nomes foram bloqueados pelo Senado, todos em 1894, durante o governo de Floriano Peixoto.
Messias é o primeiro indicado a ser rejeitado após a aprovação da Constituição de 1988. Agora, Lula deverá escolher outro para ocupar a mesma vaga. O novo indicado deverá ser submetido à aprovação dos senadores.
Anteriormente, a AGU foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) por 16 votos a favor e 11 contra. No início da sessão, o senador Weverton Rocha (PDT-MA), relator da indicação, disse ter sido questionado se o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), agia contra a indicação de Messias.
“Não há necessidade de se falar em boicote, pois Vossa Excelência deu total liberdade para o andamento do processo, sem qualquer tipo de interferência”, defendeu Weverton. Alcolumbre disse que evitaria comentar as denúncias para focar em seu papel institucional no comando da sessão.
Durante a audiência, Messias foi confrontado por senadores da oposição sobre temas como aborto e liberdade de expressão. Fez acenos ao Congresso, defendendo a separação de poderes e a prerrogativa do Legislativo. Disse ainda que o STF não pode atuar como uma espécie de “Procon da política”, mas também “não pode ficar calado”.
Lula tentou driblar a resistência de Alcolumbre a Jorge Messias
Lula nomeou Jorge Messias para ocupar a vaga do ministro Luís Roberto Barroso, que antecipou sua aposentadoria, em 20 de novembro de 2025. No mesmo dia, a decisão foi formalizada no Diário Oficial da União (DOU).
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), defendeu a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), ao STF. Além de preferir outro candidato, Alcolumbre reclamou de não ter sido informado da decisão do petista.
“Tomei conhecimento da decisão do governo pela imprensa. Estabeleci diálogo com os senadores para organizar [a sabatina e a votação]pois temos um período curto”, disse o senador em 1º de dezembro de 2025.
A audiência foi marcada para o dia 10 daquele mês. Em retaliação, o chefe do Legislativo colocou em votação uma “agenda bomba” para o governo.
Diante da resistência, Lula contornou Alcolumbre e decidiu não enviar ao Senado a mensagem oficial com o nome do Messias, passo necessário para dar continuidade ao processo de indicação.
O senador cancelou a audiência, acusando o governo de “grave omissão”. A mensagem só foi encaminhada à Casa Alta no dia 1º de abril, quatro meses após o anúncio da indicação.
“Ministério da Verdade”
Sob o comando de Messias, a AGU criou a Procuradoria Nacional da União de Defesa da Democracia, o chamado “Ministério da Verdade”, devido ao seu papel na remoção de conteúdos digitais. Juristas ouvidos pelo Gazeta do Povo consideram que o corpo é utilizado como instrumento de censura que ameaça a liberdade de expressão no Brasil.
Eles ressaltam que a AGU ampliou o uso de notificações extrajudiciais para remoção de conteúdo sem a necessidade de ordem judicial pública, o que ocorre sem processo direto contra o autor e sem chance de contradição.
“Sem transparência, o usuário nem sabe contra quem litigar, o órgão foge da responsabilização política, e a plataforma se camufla na própria moderação. É a forma de censura mais sofisticada do século 21, exatamente aquela que o artigo 19 do Marco Civil da Internet, antes de ser desfigurado pelo STF, existia para impedir”, disse o advogado Leonardo Corrêa, presidente da Lexum.
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Evangélico, Messias contou com o apoio de Mendonça na turnê
Em novembro, Messias iniciou o “beija-mão”, campanha que todos os indicados à Corte realizam junto aos senadores. O ministro André Mendonça foi o primeiro membro do STF a declarar publicamente apoio ao indicado de Lula.
Os dois são evangélicos e já comandaram a AGU. Mendonça é pastor assistente da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, em São Paulo. O indicado de Lula é membro da Igreja Batista Cristã de Brasília.
Em carta ao Senado, Messias destacou sua origem cristã e afirmou que agiria com “imparcialidade” e “orientado” por valores, como fé, família e trabalho, caso fosse aprovado.
Além disso, Mendonça também enfrentou resistência de Alcolumbre na escolha de seu nome. Em 2021, o senador foi presidente da CCJ e defendeu a escolha do então procurador-geral da República, Augusto Aras, para a Corte. Na época, Alcolumbre demorou mais de quatro meses para agendar a audiência.
Quem é Jorge Messias?
Há dez anos, Jorge Messias ficou conhecido nacionalmente como “Bessias” ao ser citado em conversa interceptada pela Operação Lava Jato entre o então presidente e Lula. A gravação foi lançada em março de 2016.
Na ocasião, Dilma pediu a Messias, seu vice-chefe de Assuntos Jurídicos da Presidência, que desse a Lula, então alvo da Lava Jato, o mandato de ministro da Casa Civil para uso “em caso de necessidade”. O episódio foi considerado uma tentativa de garantir a Lula um foro privilegiado.
Messias é graduado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife (UFPE), mestre em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional pela Universidade de Brasília – UnB (2018) e doutor pela mesma universidade (2023), onde lecionou como professor visitante.
Procurador da Fazenda Nacional desde 2007, foi vice-chefe de Assuntos Jurídicos da Presidência da República, secretário de Regulação e Supervisão do Ensino Superior do Ministério da Educação e consultor jurídico dos ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação. Ele é casado e tem dois filhos.
Quem são os ministros do STF, quem os nomeou e quando devem se aposentar
O limite de idade para exercer o cargo de ministro do STF é de 75 anos, quando ocorre a aposentadoria compulsória. Contudo, os membros do Tribunal podem antecipar a sua reforma, como aconteceu com Barroso. Veja abaixo a idade atual dos ministros, o ano de posse e quando estão previstos para se aposentar:
- Luiz Fux (73 anos): Indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Tomou posse em 2011. Deve se aposentar em 2028;
- Cármen Lúcia (72 anos): Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tomou posse em 2006. Deve se aposentar em 2029;
- Gilmar Mendes (70 anos): Indicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Tomou posse em 2002. Deve se aposentar em 2030;
- Edson Fachin (68 anos): Indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Tomou posse em 2015. Deve se aposentar em 2033;
- Dias Toffoli (58 anos): Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tomou posse em 2009. Deve se aposentar em 2042;
- Alexandre de Moraes (57 anos): Indicado pelo ex-presidente Michel Temer (MDB). Tomou posse em 2017. Deve se aposentar em 2043;
- Flávio Dino (57 anos): Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tomou posse em 2024. Deve se aposentar em 2043;
- Nunes Marques (53 anos): Indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Tomou posse em 2020. Deve se aposentar em 2047;
- André Mendonça (53 anos): Indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Tomou posse em 2021. Deve se aposentar em 2047;
- Cristiano Zanin (50 anos): Indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tomou posse em 2023. Deve se aposentar em 2050.
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