
A janela partidária fechou nesta sexta-feira (3) sob forte influência da campanha pré-eleitoral, deixando como resultado uma reorganização significativa e estratégica das forças políticas na Câmara e no Senado. No total, os números preliminares indicam 120 movimentações entre os 513 deputados federais.
O principal beneficiário foi o PL, que consolidou sua posição como maior grupo da Câmara ao chegar a 100 deputados. O partido recuperou perdas acumuladas desde 2022 e fortaleceu sua musculatura, ampliando sua capacidade de negociação para disputas majoritárias, especialmente Presidência e Senado.
Na outra extremidade, o União Brasil liderou perdas, com saída de 28 deputados, embora tenha conseguido amenizar o impacto com 21 novos integrantes. Mesmo assim, a sigla que forma federação com o PP encolheu e hoje conta com 51 membros, permanecendo como a terceira maior força da Câmara.
O PT, por sua vez, manteve relativa estabilidade. Mesmo com a saída simbólica de Luizianne Lins (CE) após décadas de filiação, o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva compensou com novas filiações e permaneceu na posição de segunda maior bancada, com 67 deputados.
O rearranjo partidário também foi impulsionado pelo cálculo eleitoral e pela sobrevivência
As trocas também destacaram movimentos de reposicionamento e sobrevivência em meio à feroz batalha pela Presidência da República, como pano de fundo. O PSDB registrou saldo positivo e tentou recuperar espaço, enquanto o PDT encolheu proporcionalmente. Já festas como PSD, PP e Republicanos mantiveram estabilidade, refletindo estratégias cautelosas.
Mais do que números, o tamanho das bancadas impacta diretamente nas negociações políticas e na criação de alianças. De todos, o Podemos registou o maior crescimento, saltando de 15 para 27 deputados, com 13 chapas e uma saída. Mas os grandes partidos seguem os mais influentes.
Por outro lado, o crescimento também traz desafios internos, como a divisão do fundo eleitoral entre mais candidatos. Para os partidos que perderam parlamentares, a aposta é no capital político acumulado nas eleições anteriores como forma de sustentar a competitividade nas próximas eleições.
No Senado, a movimentação também foi intensa, embora sem as restrições da janela para cargos majoritários, mas afetada por projetos eleitorais regionais e nacionais.
O PSD perdeu três deputados. Rodrigo Pacheco, cotado para concorrer ao governo de Minas Gerais, segue para o PSB. Aliada do governo, a senadora Eliziane Gama (MA) anunciou sua saída do PSD e sua filiação ao PT. O senador Angelo Coronel (BA), que almeja a reeleição, também trocou de partido para o Republicanos. O PSD, porém, ganhou um novo integrante com a adesão de Carlos Viana (MG), vindo do Podemos.
O PL ganhou dois novos nomes com duas novas contratações de senadores que eram do União Brasil: Sergio Moro (PR) e Efraim Filho (PB). O partido, porém, viu a saída da senadora Eudócia Caldas (AL), que foi para o PSDB.
Desincompatibilidade de cargos acelera corrida eleitoral nos estados
Ao mesmo tempo, o prazo de descumprimento que termina no sábado (4) impulsionou a dinâmica eleitoral. Onze governadores deixaram seus cargos para concorrer a outros cargos, principalmente ao Senado. O movimento também abre espaço para rearranjos nos governos estaduais e novas lideranças locais.
Ronaldo Caiado (PSD-GO) anunciou sua candidatura à Presidência na semana passada. Romeu Zema (Novo-MG) fez o mesmo, também deixando o cargo após dois mandatos consecutivos e assumindo a disposição de concorrer ao Palácio do Planalto, embora ainda não tenha formalizado sua pré-candidatura.
Oito ex-governadores pretendem agora concorrer a uma vaga no Senado. São eles: Gladson Cameli (PP-AC); Wilson Lima (União-AM), Ibaneis Rocha (MDB-DF), Renato Casagrande (PSB-ES); Mauro Mendes (União-MT); Helder Barbalho (MDB-PA), João Azevêdo (PSB-PB) e Antonio Denarium (PP-RR). A maior surpresa foi Wilson Lima, que anunciou de última hora que sairia em campanha, após reafirmar diversas vezes que permaneceria no cargo.
O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) também renunciou ao mandato para concorrer a uma vaga no Senado. Porém, no mês passado ele foi condenado à inelegibilidade até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Portanto, ele terá que disputar o cargo sub judice.
Nove governadores concorrerão à reeleição e permanecerão no cargo: Clécio Luís (União-AP); Jerônimo Rodrigues (PT-BA); Elmano de Freitas (PT-CE); Eduardo Riedel (PP-MS); Raquel Lyra (PSD-PE); Rafael Fonteles (PT-PI); Jorginho Mello (PL-SC); Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Fábio Mitidieri (PSD-SE). Pela legislação, os políticos não precisam deixar seus cargos no Poder Executivo caso pretendam concorrer a um segundo mandato.
Por fim, sete governadores decidiram encerrar o mandato e não concorrer nas eleições. Eles já cumprem seu segundo mandato consecutivo. São eles: Paulo Dantas (MDB-AL); Carlos Brandão (Sem partido-MA); Ratinho Júnior (PSD-PR); Fátima Bezerra (PT-RN); Eduardo Leite (PSD-RS), Marcos Rocha (PSD-RO) e Wanderlei Barbosa (Republicanos-TO).
No nível federal, a saída de 16 ministros do governo Lula para disputar as eleições evidenciou a estratégia eleitoral. Os destaques são a candidatura ao Senado paulista das ministras Marina Silva (Meio Ambiente), que continuou na Rede, e Simone Tebet (Planejamento), filiada ao PSB, na chapa de Fernando Haddad (Finança), candidato ao governo paulista. Os movimentos revelam a prioridade de Lula no maior colégio eleitoral do país.
Disputa por vagas no Congresso reflete planos de poder e busca por estrutura
Além dos movimentos formais, fortes filiações e candidaturas separadas mostram que o processo eleitoral já está em pleno andamento.
A entrada de figuras como Kátia Abreu, ex-PP, no PT e o retorno de nomes como Cabo Daciolo, recentemente filiado à Mobiliza, candidato à corrida presidencial, ilustram a diversidade de estratégias. Pré-candidata ao governo do Tocantins, Kátia recebeu apoio de Lula, mas enfrenta resistência da ala petista interna do estado.
Esses movimentos revelam que a disputa de 2026 vai além das eleições presidenciais. É também uma batalha pelo controlo do Congresso, pelo acesso aos recursos públicos e pela influência institucional, factores decisivos para a governação futura. Com 155 milhões de eleitores elegíveis para votar, as eleições deste ano mobilizam todo o sistema político. Dirigentes como Gilberto Kassab, do PSD, e Valdemar Costa Neto, do PL, fazem suas apostas e contas.
A janela partidária e a desincompatibilidade funcionam como etapas iniciais de um processo que tende a se intensificar até as convenções partidárias. Neste contexto, o redesenho das forças políticas indica que as eleições de 2026 serão marcadas não apenas pela escolha dos líderes, mas pela disputa estrutural por poder, recursos e direção política do país.
