Como saída de Ratinho Junior muda tabuleiro presidencial


A decisão do governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD)abandonar a corrida presidencial redesenha o cenário eleitoral de 2026 e altera o equilíbrio da chamada “terceira via”. Se antes o PSD trabalhava com três nomes concorridos, agora terá que escolher entre dois projetos distintos: um mais à direita, representado pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e outro mais à centro-esquerda, liderado pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite.

“O partido tinha três candidatos a governador, agora tem dois. E ambos têm apelos claros”, lembra o cientista político Antonio Lavareda. Por um lado, Caiado destaca o discurso sobre o combate à criminalidade, tema que deverá ganhar centralidade na campanha. Por outro lado, Leite adere à agenda da responsabilidade fiscal e da reconstrução administrativa.

“A questão é se há espaço para outra candidatura de direita, além de Flávio Bolsonaro, ou para uma candidatura centrista dentro da disputa, como Eduardo Leite”, questiona o cientista político Leandro Cosentino, professor do Insper.

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Ratinho Junior recua para preservar legado e evitar isolamento político no Paraná

A decisão de Ratinho Junior foi menos abrupta do que parece. Nos bastidores, é interpretado como um movimento calculado para preservar o capital político local e evitar riscos desnecessários numa corrida nacional incerta.

Segundo a cientista política Letícia Mendes, “a retirada foi para manter o legado dentro do Paraná e compor as forças políticas” num cenário em que o apoio da família Bolsonaro ao seu projeto era frágil no estado. Mendes avalia que o governador percebeu um ambiente adverso e preferiu não comprometer sua base.

Outro fator relevante foi o cálculo eleitoral interno. Com a filiação do senador e pré-candidato ao governo do Paraná Sergio Moro ao Partido Liberal (PL), os riscos quanto à sucessão local aumentaram. Ao permanecer no Paraná, Ratinho Junior mantém o controle de seu grupo político e preserva um patrimônio valioso para uma possível candidatura futura.

Na opinião do cientista político Samuel Oliveira, a desistência de Ratinho Junior foi calculada, já que os motivos alegados são a resistência familiar e a necessidade de permanecer no Paraná para cuidar da sucessão política.

“Isso é importante porque mostra que Ratinho Junior preferiu preservar seu poder real e local, em vez de embarcar numa aventura nacional pela Presidência. Na política, isso geralmente significa que o projeto presidencial não estava maduro e suficientemente pronto para justificar o risco de perder o controle da própria base”, diz Oliveira.

“Ele pode ser menor agora, mas preserva o valioso patrimônio político para 2030, por exemplo, em seu próprio estado do Paraná, onde estão seu legado e suas articulações”

Samuel Oliveira, cientista político

Além disso, Ratinho Junior foi convidado para atuar como vice-presidente em uma possível chapa liderada por Flávio Bolsonaro (PL). Também havia planos para que ele concorresse a uma vaga no Senado, mas optou por permanecer no cargo e completar o mandato à frente do governo do estado, priorizando a agenda administrativa e consolidando seu capital político no estado.

Caiado ganha força interna e torna-se nome mais competitivo do PSD

Com a saída de Ratinho Junior da corrida presidencial, Ronaldo Caiado surge como o principal beneficiário dentro do PSD. “O jogo muda porque Caiado passa a ser o nome mais claro do PSD”, avalia o cientista político Samuel Oliveira. Ainda assim, o fortalecimento seria mais institucional do que eleitoral.

Na avaliação de Oliveira, Caiado herda espaço dentro da sigla, mas enfrenta um desafio fora dela. “Ele poderia ser o melhor nome para roubar o espaço de Flávio Bolsonaro no campo mais tradicional da direita, mas também poderia sofrer o mesmo que João Doria, porque os apoiadores de Bolsonaro não o verão como alguém suficientemente enraizado.”

O episódio citado pelo cientista político ocorreu em 2022, quando o ex-governador de São Paulo pelo PSDB não conseguiu se viabilizar após se afastar da família Bolsonaro, sofrendo isolamento político do próprio partido.

Os especialistas lembram ainda que a força de Caiado está na ligação com o agronegócio e com o interior do país, principalmente no Centro-Oeste. Afirmam que o governador de Goiás conseguirá explorar o momento de tensão entre o setor e a família Bolsonaro, em julho, devido à tarifa imposta na época pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro foi apontado como um dos organizadores da imposição de tarifas de 50% aos produtos brasileiros e também da aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Caiado também é considerado pelos especialistas o mais próximo da família Bolsonaro. No início do mês, no dia 1º de março, o governador de Goiás marcou presença na manifestação em apoio a Jair Bolsonaro e à anistia aos presos do dia 8 de janeiro. Ele falou ao lado de Flávio Bolsonaro, Romeu Zema (Novo) e lideranças próximas ao ex-presidente. A ação fez parte do movimento “Acorda Brasil – São Paulo”, liderado por políticos do PL, e aconteceu na Avenida Paulista.

Eduardo Leite resiste à disputa e mantém opção de centro dentro do partido

Do outro lado, Eduardo Leite continua como alternativa para uma candidatura centrista. Seu perfil é visto como mais palatável para eleitores moderados e para um possível segundo turno.

Mesmo assim, o gaúcho enfrenta dificuldades para viabilizar a pré-candidatura até o momento. Na pesquisa March Quaest sobre intenções de voto para a presidência da República em 2026, Eduardo Leite apareceu com 3% de intenções de voto nos dois cenários em que foi testado, empatado com Romeu Zema em um deles e sem ultrapassar esse patamar.

O resultado o colocou atrás de Ratinho Junior, que alcançou 7%, e Ronaldo Caiado, com 4%, indicando a menor competitividade de Leite e a dificuldade de ganhar força nacional neste momento.

  • Metodologia: A pesquisa Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 6 e 9 de março. A pesquisa foi encomendada pelo Banco Genial SA. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-05809/2026.

PSD mantém candidatura própria e usa a incerteza como estratégia de negociação

Apesar da saída de Ratinho Junior, o PSD afirmou que terá candidato próprio a presidente. Em nota publicada nesta segunda-feira (23), o presidente do partido, Gilberto Cassabreafirmou que o partido apresentará um “caminho melhor”, o que, segundo ele, é uma alternativa à polarização.

Nos bastidores, porém, a estratégia pode ser mais pragmática. Analistas políticos afirmam que a própria candidatura do candidato funciona como instrumento de valorização do partido, aumentando o poder de barganha para o segundo turno. “A candidatura poderá ser menos um objetivo final e mais um instrumento de negociação”, afirma Samuel Oliveira.

No horizonte, a eleição continua lida como polarizada, com confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro. Neste cenário, o candidato do PSD poderá funcionar mais como intermediário do que como protagonista. A questão central será medir quanto deste eleitorado de centro e centro-direita o partido será capaz de capturar na primeira volta.

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