
Há mais do que estilos de vida extravagantes nas semelhanças entre Jeffrey Epstein e Daniel Vorcaro, centrais nos escândalos de corrupção que expõem o ponto fraco do poder no Brasil e nos Estados Unidos.
Embora não haja acusação de que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tenha agido como predador sexual, como é o caso de Epstein, o “empresário” brasileiro ainda está associado a festas selvagens, proibidas para menores de 18 anos, e ao mesmo padrão de ostentação e tráfico de influência com poderosos da política, do judiciário, celebridades e ricos.
No programa Ouça Essa, o jornalista Marcos Tosi traz à tona semelhanças e comparações, não sobre a natureza das acusações criminais, mas sobre o modus operandi de quem atua na sombra, promovendo e aproveitando a promiscuidade entre poder, dinheiro e contratos gordos.
Ostentação como cartão de visita
O financista Epstein construiu sua aura administrando fortunas de bilhões de dólares e cultivando amizades no topo da cadeia global. Dono de luxuosas mansões, uma ilha particular no Caribe e um jato que ficou conhecido como “Lolita Express”, ele circulava com desenvoltura entre chefes de estado, empresários e membros da realeza.
Vorcaro também adotou a aparência de um financista sofisticado. Reportagens mostram mansões milionárias dentro e fora do país, além de jatos usados para dar carona a convidados ilustres, como Dias Toffoli, para assistir à final da Libertadores no Peru. Se Epstein tinha uma ilha no Caribe, Vorcaro também tinha propriedades invejáveis, como o resort Tayaya, adquirido da família Toffoli na “Angra Doce” brasileira, entre Paraná e São Paulo.
As imagens dos casarões, de ambos, reforçam a artimanha de construir uma reputação no mercado financeiro com uma estética de poder: luxo, exclusividade e acesso restrito.
Amigos e contratos em todos os lugares
Epstein vangloriava-se de ser íntimo da elite global, enquanto Vorcaro não o era menos, vangloriando-se de ter amigos nos três poderes da República.
Epstein acumulou filmagens e fotos ao lado de ícones como Bill Clinton, Donald Trump, Bill Gates e Príncipe Andrew. Vorcaro também fez sua própria coleção de slides, incluindo festas picantes de poderosos, que hoje estão sob a guarda da Polícia Federal e do gabinete do ministro do STF, André Mendonça. Vale dizer que a libertinagem na vida privada não constitui crime, mas as coisas ficam bastante suspeitas quando esses ambientes reúnem pessoas com poder de decisão sobre contratos bilionários, recursos públicos, sentenças judiciais e políticas de Estado.
No caso Epstein, o capital simbólico veio do acesso à elite global. Vorcaro, por outro lado, lucrou com suas ligações com o núcleo decisório da República. Quem não faria negócios com um cara que é recebido pelo presidente da República, que tem livre acesso aos gabinetes do Congresso, que tem na folha de pagamento figuras como Ricardo Lewandowski, Guido Mantega e a esposa do ministro Alexandre de Moraes?
Epstein foi preso em 2019 e morreu na prisão, oficialmente por suicídio, em circunstâncias que geram teorias e suspeitas até hoje. Vorcaro é hoje o maior arquivo vivo do lado obscuro e corrompido da república brasileira. Ele é um cara que precisa dizer o que sabe. E isso o país quer ouvir.
