investigação apura se ex-presidente da Amprev foi coagido


As investigações sobre os aportes de R$ 400 milhões da Amapá Previdência (Amprev) no Banco Master avançam em mais um ponto central: se o ex-presidente do município, Jocildo Lemos, que renunciou ao cargo no último dia 11, foi pressionado, orientado ou de alguma forma induzido a realizar os investimentos e, caso isso se confirme, quem foram os atores que operaram o esquema.

Lemos é aliado político do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e teria sido indicado por ele para chefiar o fundo de pensão dos funcionários do Amapá, que caiu na teia do Banco Master ao fazer investimentos de alto risco mesmo após receber alertas de assessores e órgãos públicos. A investigação é conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público estadual.

De acordo com uma investigação do Gazeta do Povoas frentes de investigação do caso buscam responder três questões centrais envolvendo o fundo de pensão do Amapá: se houve influência externa ou pressão política sobre Jocildo Lemos para aprovar as contribuições; se o processo de tomada de decisão foi conduzido de forma deliberadamente acelerada para evitar questões técnicas; e se o credenciamento do banco e as medidas tomadas foram suficientes para proteger os recursos da seguridade social.

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Segundo fontes que acompanham a investigação, inquérito realizado a partir de auditoria do Ministério da Previdência Social, compartilhada com a Polícia Federal, identificou indícios de possível influência externa na condução de decisões que resultaram na aplicação de milhões em letras financeiras do banco de Daniel Vorcaro, que não foram cobertas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

O caso ganhou nova dimensão após a revelação de que Lemos, ao final da reunião que aprovou o primeiro aporte de R$ 200 milhões, em 12 de julho de 2024, afirmou que a decisão havia “retirado um ônus do [suas] voltar.” A declaração, gravada em áudio e citada na auditoria, não consta da ata oficial. Logo após o desabafo de Lemos, os demais conselheiros teriam respondido com risadas solidárias. Para os auditores, a fala poderia indicar “compromisso ou influência externa” no processo de tomada de decisão.

A partir desse episódio, os investigadores passaram a analisar se o líder agiu por convicção técnica ou sob pressão política ou institucional. Lemos foi indicado para o cargo com apoio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), de quem é aliado político.

Alcolumbre não é investigado e afirma não ter relação com os investimentos feitos pela Amapá Previdência. Ele defende que as investigações ocorram com o devido rigor da lei para penalizar os responsáveis ​​pelas fraudes.

O ex-presidente da Amprev também atuou como tesoureiro da campanha à reeleição do senador em 2022. Lemos foi procurado, mas não respondeu ao pedido de entrevista da reportagem.

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Aprovações aceleradas e resistência interna

Os aportes no valor de R$ 400 milhões foram aprovados em três reuniões consecutivas realizadas de 12 a 30 de julho de 2024. A proposta foi apresentada por um conselheiro descrito nas investigações como principal coordenador de investimentos na Master. O Gazeta do Povo ele não conseguiu fazer contato com sua defesa.

No dia 6, Lemos e outros dois conselheiros, além da sede da Previdência do Amapá, foram revistados e apreendidos pela PF.

Na primeira reunião, em julho de 2024, a aprovação para investimento no fundo Master foi de R$ 200 milhões. Na semana seguinte, quando o assessor citado como articulador dos investimentos propôs um novo aporte de R$ 100 milhões, a resistência teria se intensificado. Dois dos cinco conselheiros defenderam cautela, principalmente após a divulgação de parecer técnico da Caixa Econômica Federal que classificou uma operação semelhante no mesmo título como “de alto risco”.

Os investigadores também usaram essas informações para fundamentar suspeitas sobre a arriscada operação da Amapá Previdência em Master.

Registros de reuniões de um dos conselhos da Amprev mostram que Lemos minimizou as preocupações dos assessores, atribuindo opinião negativa da Caixa, na época, a “histórias de mercado” e antecipando que votaria a favor do novo investimento. Seu voto foi acompanhado pelos dois vereadores citados e, assim, a proposta acabou sendo aprovada por maioria.

Na terceira reunião, realizada em 30 de julho, foi autorizado um investimento adicional de R$ 100 milhões na Master. Segundo relatórios técnicos, naquele momento, a Amprev tinha pouco mais de R$ 300 milhões em caixa, o que significa que o novo aporte representava um terço da disponibilidade financeira do fundo.

Os investigadores analisam se a condução acelerada das votações e a rejeição de esforços externos indicam uma decisão que pode ter sido previamente acordada.

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Documentos “copiados” e credenciamento sob suspeita

Outro elemento que reforçou as suspeitas dos investigadores foi a constatação de que o credenciamento do Banco Master para receber recursos de fundos de pensão havia sido realizado por meio de documentos padronizados, idênticos aos apresentados em pelo menos três outros fundos. A assessoria de imprensa do Master disse Gazeta do Povo que não comentará o assunto.

Segundo auditoria do Ministério da Previdência Social, os textos continham descrições elogiosas do banco e reproduziam linguagem institucional, sem análise técnica aprofundada dos riscos. Técnicos da Amprev teriam admitido que a documentação foi elaborada pelo próprio banco e posteriormente utilizada pelo município.

Para os auditores, houve “negligência incompatível” com a responsabilidade fiduciária dos gestores de pensões, uma vez que a governação dos fundos de pensões exige uma avaliação cuidadosa e independente dos riscos envolvidos.

Os investigadores também querem saber se Jocildo Lemos tinha conhecimento da origem dos documentos e se houve orientação para aprová-los sem análise autônoma. Embora não haja, até o momento, indícios de coação ou coordenação para os investimentos, a linha investigativa considera a hipótese de que Lemos possa ter sofrido pressão política ou institucional para garantir a aprovação dos aportes.

A PF também analisa a atuação do assessor que liderou a defesa dos investimentos, apesar de ser investigado por irregularidades em outro fundo de pensão no Amapá.

Em setembro de 2025, o Tribunal de Justiça do Amapá determinou o afastamento do conselheiro do comitê de investimentos enquanto tramitavam processos relacionados à sua gestão anterior. A decisão não foi acatada pela Amprev na época. Ele deixou o cargo somente após o início da operação policial visando candidaturas no Master.

Em nota, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, apontado como padrinho político de Lemos, afirmou que defendeu que o caso seja investigado “com transparência e respeito ao devido processo legal”.

A liquidação do Banco Master aumentou as preocupações sobre possíveis perdas para o fundo Amapá e pelo menos duas dezenas de outras instituições similares. Estas autoridades gerem recursos destinados ao pagamento de reformas e pensões dos funcionários públicos.

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Leia na íntegra a nota de Jocildo Lemos sobre a saída do Amapá da Previdência Social

Seguindo com absoluto comprometimento com a instituição, com os segurados e com a veracidade dos fatos, apresento meu pedido de destituição do cargo de Diretor Presidente da Amprev. Faço isso para que a Justiça atue com total independência e para que fique plenamente comprovado que todos os procedimentos adotados sob minha gestão observaram rigorosamente a legalidade, permitindo identificar e responsabilizar os verdadeiros culpados.

Reafirmo minha plena confiança na Justiça e na força dos fatos. Sob esta gestão, o patrimônio da Amprev cresceu 41% entre 2023 e 2025, garantindo o pagamento dos aposentados e pensionistas até 2059.

Jocildo Lemos

Confira a nota emitida pela Amapá Previdência

Amprev adota medidas legais e reafirma compromisso com a proteção do patrimônio dos segurados

A Amprev se sente prejudicada pelas más ações do Banco Master e não desiste de ser indenizada. Portanto, já tomou todas as medidas legais cabíveis, inclusive conseguindo bloquear pagamentos ao banco.

A instituição espera que a justiça seja feita e que os infratores do Banco Master sejam punidos.

A Amprev reforça que os investimentos realizados no Banco Master, validados pelo Banco Central, representam 4,7% da carteira total da instituição. Sob esta gestão, o patrimônio da Amprev aumentou 41% de 2023 a 2025, garantindo pagamentos a aposentados e pensionistas até 2059.



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