Relator da CPMI do INSS quer prisão de dirigente de confederação


O relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), ameaçou pedir a prisão do presidente da Confederação Brasileira dos Trabalhadores na Pesca e Aquicultura (CBPA), Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, após ele decidir ficar calado e não responder perguntas durante seu depoimento nesta segunda-feira (3). Na sessão, Gaspar pediu ao presidente do colegiado, senador Carlos Viana (Podemos-MG), que cogitasse a prisão do líder ao final da sabatina. A prisão foi determinada por Viana ao final do depoimento.

“Ao final do depoimento, escolherei exatamente os motivos do pedido de prisão em flagrante por falso depoimento por manter silêncio sobre a verdade.

A fala ocorreu após Cruz se recusar a responder ao relator sobre os motivos de sua prisão em 2015. Ele foi preso em outubro daquele ano durante a Operação Enredados, da Polícia Federal, suspeito de participar de um esquema de venda, fraude e comercialização ilegal de licenças para pesca industrial, que envolvia órgãos ambientais. O grupo teria cobrado até R$ 100 mil para liberar licenças, causando prejuízos estimados em R$ 1,4 bilhão à União.

No entendimento do relator, o depoente não poderia permanecer calado diante dos fatos públicos. Abraão Lincoln não comentou o pedido de prisão e a sessão foi interrompida por cerca de 10 minutos para tentar chegar a um consenso.

Cruz compareceu à comissão amparado por habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que lhe garantiu o direito ao silêncio. Contudo, o depoente permaneceu em silêncio mesmo diante de questões que, segundo o relator, não o incriminavam —o que causou desconforto entre os parlamentares. Ele já foi alvo de um primeiro pedido de prisão preventiva pelo colegiado, aprovado em setembro, mas o pedido ainda não foi deliberado pelo ministro André Mendonça, do STF, relator do caso.

A entidade, alvo de investigação da Polícia Federal (PF) na Operação Sem Desconto, é suspeita de irregularidades de grande porte. Segundo reportagem do portal Metrópolesa Controladoria-Geral da União (CGU) destacou que a confederação não teria nenhum funcionário registrado, apesar de ter atingido, em 2024, a marca de 445 mil associados e um faturamento de R$ 41,2 milhões no mesmo ano — totalizando R$ 221 milhões.

Ainda segundo as investigações, o CBPA teria solicitado em torno de 40 mil vezes a inclusão de descontos em benefícios para falecidos. O acordo de cooperação técnica firmado com o INSS em 2022 determinava que a entidade comunicasse os falecimentos dos segurados e restituisse valores recebidos indevidamente, o que não teria ocorrido.

Ao iniciar seu discurso no colegiado, Cruz negou as irregularidades e afirmou que a entidade surgiu inicialmente com 12 federações e atualmente conta com 21 federações, com pouco mais de 1000 colônias e sindicatos de pescadores.

“Nós existimos. Principalmente [dos] O Brasil afirma que existe pesca artesanal, estamos aqui para dizer que nossas instituições existem. Vocês podem ver isso em seus estados, porque muitos de vocês podem ver nossas colônias e nossos sindicatos. Estamos sediados em 95% dos municípios onde temos confederados. A CBPA, como qualquer outra confederação, não possui trabalhadores diretamente filiados a ela”, afirmou.

Em conferência de imprensa, Viana mencionou a possibilidade de pedir a prisão do depoente. “Quem mentir na CPMI receberá pena de prisão. Mesmo que tenha direito à fiança, mostraremos ao povo brasileiro que estamos aqui para ouvir das pessoas o que elas devem dizer. Tenho muita confiança de que se ele continuar sonegando informações poderá ser preso esta noite”, disse o senador mineiro.

Sobre suspeitas de irregularidades nos descontos associativos, a CBPA afirmou, em nota enviada ao UOLque os pescadores filiados são “pessoas humildes, de hábitos simples, que inicialmente reconhecem sua filiação à entidade mais próxima, geralmente sua colônia de pescadores”. “Apesar disso, o CBPA cumpre regularmente o papel de oferecer aos seus associados que fazem a contribuição confederativa em planos de benefícios […] e reitera seu total apoio às instituições de controle brasileiras, que buscam proteger os aposentados de práticas fraudulentas”.

VEJA TAMBÉM:

  • Senador Carlos Viana é presidente da CPMI do INSS

    CPMI: Carlos Viana prende presidente de entidade suspeita de escândalo do INSS

CPMI aponta ligação com “Careca do INSS”

O relator apresentou documentos que, segundo ele, comprovam transferências do CBPA para empresas ligadas ao “Careca do INSS”. Os repasses, segundo os dados apresentados, totalizam quase R$ 13 milhões.

“Sua confederação movimentou valores altíssimos com essas empresas. Só para o grupo ‘Careca’, os repasses ultrapassam R$ 10 milhões. Você financiou o maior criminoso desse esquema”, declarou Gaspar.

“Não há justificativa plausível para um repasse tão grande. Não se pode alegar desconhecimento sobre quem eram os beneficiários”, afirmou o relator.

Cruz novamente se esquivou das perguntas, dizendo em outro momento: “Não me lembro, senhor relator”.

Durante a sessão, Gaspar afirmou ainda que o CBPA funcionava como “um elo entre o dinheiro dos aposentados e o núcleo liderado pelo ‘Careca do INSS’”. Segundo ele, a confederação faz parte de um dos principais eixos da “arquitetura criminosa” investigada pela CPMI, responsável por descontos indevidos em benefícios previdenciários.

“A confederação presidida pelo senhor Abraão Lincoln é uma parte estruturante desse sistema criminoso. É a ligação entre o dinheiro dos aposentados e o núcleo operacional comandado pelo ‘Careca do INSS'”, afirmou.

O relator também citou suspeitas de inclusão de pessoas falecidas como associados, o que teria permitido o desvio de recursos por meio de cobranças indevidas.

“O CBPA arrecadou mais de R$ 221 milhões e tentou incluir mais de 40 mil mortos em sua base de associados. Essa operação não é um erro administrativo – é uma fraude deliberada”, disse Gaspar.

Cruz permaneceu em silêncio até o final do depoimento. O relator afirmou que a conduta do dirigente e as informações obtidas na audiência serão analisadas para subsidiar o relatório final da CPMI.

“O silêncio do depoente apenas reforça o que esta comissão vem investigando: que o CBPA trabalhou em parceria com o ‘Careca do INSS’ para desviar dinheiro público de forma sistemática e organizada”, finalizou Gaspar.

VEJA TAMBÉM:

  • juros sobre folha de pagamento

    6 indícios de que o governo Lula agiu para proteger entidades aliadas ao escândalo do INSS

  • CPMI INSS

    Oposição propõe projetos com regras duras para frear desvios do INSS e deixar legado da CPMI

Damares pede expulsão de investigado pela CPMI do Republicanos

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) pediu, nesta segunda-feira (3), a expulsão do presidente da Confederação Brasileira dos Trabalhadores na Pesca e Aquicultura (CBPA), Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, das fileiras do Partido Republicano. A carta, enviada ao secretário-geral do partido, Demóstenes Félix, foi formalizada no mesmo dia em que Cruz prestou depoimento à CPMI do INSS.

O CBPA é alvo de investigação da Polícia Federal (PF) na Operação Sem Desconto por suspeita de irregularidades de grande porte.

“As denúncias reveladas comprometem a imagem e os valores éticos do partido, por isso são necessárias ações imediatas para preservar a credibilidade e o compromisso público que orientam a atuação dos Republicanos”, disse Damares no pedido.

Esta não é a primeira vez que Cruz pode ser alvo de sanções dentro do partido. Em 2015, foi afastado da presidência da Comissão Provisória do PRB do Rio Grande do Norte.



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *