
Um desenho animado publicado por Folha de S.Paulo no sábado (9) provocou reação de associações de magistrados, tribunais e representantes do Poder Judiciário, que associaram o sorteio à recente morte da juíza Mariana Francisco Ferreira, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. A autora do cartoon, Marília Marz, negou que a morte do magistrado tenha servido de inspiração para o desenho.
A charge trazia uma lápide com a frase “Vidinha, mais ou menos, até que perdi junto aos penduricalhos”, numa referência crítica aos benefícios pagos aos magistrados. O desenho foi publicado em meio ao debate sobre os chamados “enforcamentos”, auxílios e pagamentos adicionais que aumentam a remuneração dos magistrados e desembargadores acima do teto constitucional.
As entidades do Judiciário, porém, reagiram ao desenho como se a imagem fizesse referência à juíza Mariana Francisco Ferreira, falecida na quarta-feira (6), aos 34 anos, após complicações decorrentes de procedimento médico ligado à fertilização in vitro. A proximidade temporal entre a morte do juiz e a publicação do cartoon levou as associações a interpretarem o desenho como uma mensagem indireta.
Até o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, publicou nota em aparente referência ao cartoon, sem citá-lo explicitamente, afirmando que a liberdade de imprensa e o direito à crítica devem ser exercidos com “prudência, responsabilidade e consciência ética”, especialmente em contextos de luto.
A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) repudiou a publicação e afirmou que a categoria não deve ser alvo de chacota em momento de luto. A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) também criticou a charge e disse que a liberdade de expressão não autoriza a “banalização da morte”.
O Tribunal Regional Federal da 3ª Região, que abrange os estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul, publicou nota dizendo que os magistrados continuarão a “enfrentar destemidamente aqueles que usam o escárnio como crítica”. “A exibição grotesca de uma lápide toscamente desenhada para constranger o judiciário brasileiro, conectando o desígnio repugnante e as palavras infames que o preenchem, com a morte que chora todas as pessoas de bem no Brasil, nada tem de jornalismo e tem tudo a ver com crueldade, mau gosto e putrefação ideológica”, publicou o TRF-3, em texto assinado por seu presidente, Luís Antonio Johonsom di Salvo.
No domingo (10), após a repercussão, Marília Marz afirmou, em resposta publicada pela Folhaque a morte do juiz “não serviu de inspiração para o cartoon” e lamentou que esta associação tenha sido feita. “Só descobri essa horrível coincidência e interpretação pelos ataques na internet. Sinto muito”, disse o cartunista.
