Entenda por que voltou a versão de crime político para morte de JK


Cinquenta anos depois, a morte do ex-presidente da República Juscelino Kubitschek poderá receber a sentença de homicídio político promovido pela ditadura militar, concedida por órgão do Estado. A Comissão de Mortes e Desaparecidos Políticos (CEMDP), vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos, deve aprovar o relatório da historiadora Maria Cecília Adão, que destaca lacunas e contextualiza politicamente o fato para definir como oficial a versão de assassinato do regime.

A nova versão foi apresentada por investigações de jornais Folha de S.Pauloque relatou ter tido acesso ao relatório com a conclusão de crime político. A teoria se apoia em hipóteses descartadas de investigações anteriores e beneficia a condição de vítima do político mineiro para concluir que o cenário mais provável é um assassinato envolvendo a morte de alguém que ameaçou o poder político do regime militar.

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Os envolvidos na aprovação do relatório afirmam estar no meio do processo de votação para não se manifestarem oficialmente sobre o assunto. “O relator trabalhou em conjunto com pesquisadores do tema para oferecer um relatório sobre o caso e comunicou aos familiares que o caso estava em análise”, disse a CEMDP em nota.

História

Juscelino viajava em direção ao Rio de Janeiro pela Via Dutra no final da tarde do dia 22 de agosto de 1976 quando o Opala em que ele viajava, dirigido por seu motorista Geraldo Ribeiro, atravessou o canteiro de obras, percorreu 50 metros na direção errada e colidiu com uma carreta Scania que vinha no sentido contrário.

As investigações da época concluíram que o veículo perdeu o controle após colidir com um ônibus da Viação Cometa que trafegava na faixa da esquerda. Motorista e passageiro morreram na hora e foram as únicas vítimas do acidente. O local onde ocorreu o desastre, em Resende (RJ), ficou conhecido como “curva de Juscelino”.

Cerca de duas semanas antes, circularam nos jornais notícias falsas de que o ex-presidente havia morrido, também em acidente de carro, a caminho de sua fazenda em Luziânia (GO). “Eles querem me matar, mas ainda não conseguiram”, teria dito o ex-presidente, antes de convocar uma entrevista coletiva para desmentir a informação.

Perto da data que marca o 50º aniversário da sua morte e poucos meses antes das eleições presidenciais, a versão do assassinato foi mais uma vez reafirmada com base nos seguintes elementos.

Contexto político

No momento da morte de JK, vigorava a chamada Operação Condor, uma espécie de acordo entre os regimes militares da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai para eliminar adversários. Em 1975, um ano antes da morte de JK, o então chefe do serviço secreto brasileiro (SNI) — posteriormente nomeado pela ditadura presidencial da República —, João Figueiredo, recebeu uma carta do chefe do serviço secreto chileno, Manuel Contreras, dizendo que Kubitschek e Orlando Letelier (que fez parte do governo deposto de Allende no Chile) seriam uma “ameaça à estabilidade” da região.

Em 21 de setembro de 1976, um mês após a morte de Juscelino, Letelier foi vítima da explosão de um carro em Washington, crime que foi imediatamente atribuído ao regime militar chileno. Juscelino foi o principal coordenador, junto com o presidente deposto João Goulart e o jornalista Carlos Lacerda, de uma campanha da Frente Ampla de oposição ao regime militar. Tinha o potencial de gerar instabilidade política no Brasil, o que seria uma preocupação para a ditadura num momento em que a economia já não ia bem e o governo não tinha o mesmo apoio popular que tinha no início.

Lacunas nas investigações

A investigação mais extensa conduzida sobre o caso, uma investigação do Ministério Público Federal, ocorreu entre 2013 e 2019. Ao final dessas investigações, a conclusão foi que seria “impossível afirmar ou descartar” a hipótese de atentado, pois as provas materiais não forneciam elementos suficientes para elucidar o acidente e explicar a perda de controle do Opala.

Para o Ministério Público Paulo Sérgio Ferreira Filho, as investigações apresentaram “graves falhas”. Utilizou como prova um processo por homicídio culposo (não intencional) que foi instaurado contra o motorista do autocarro Cometa, Josias Oliveira, e que culminou na sua absolvição.

Josias sempre negou que seu ônibus tenha colidido com o carro e disse em depoimento que o veículo passou na sua frente. Passageiros do ônibus também relataram não ter sentido o impacto do carro.

Os laudos toxicológicos também não teriam conseguido indicar que o motorista de JK estava embriagado, pois os exames da época não detectaram outras substâncias além do álcool no sangue. O envenenamento de Geraldo Ribeiro foi uma hipótese levantada na época.

A hipótese de o motorista ter sido baleado também foi investigada. A exumação de seu corpo em 1996 comprovou que a presença de um artefato metálico no crânio era, na verdade, um prego enferrujado do caixão.

A própria Comissão Nacional da Verdade, criada durante o governo Dilma Rousseff para investigar os crimes da ditadura e que reconheceu 434 novas vítimas, concluiu em 2014 que a hipótese de crime político pela morte de JK não poderia ser comprovada e que o acidente foi causado pela colisão do ônibus com o Opala.

Um exame mais recente, conduzido pelo engenheiro Sergio Ejzenberg, especialista em transportes que foi convidado pelo MPF para examinar documentos de 1976 e 1996 do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), no Rio de Janeiro —base da tese oficial da colisão entre o ônibus e o carro—, rejeitou a hipótese de colisão.

Com vídeos em 3D que simulam o desastre, Ejzenberg disse que a Comissão da Verdade usou “relatórios inúteis do ICCE”, o que teria levado ao erro.

Conclusão

Sem maiores investigações, a historiadora Maria Cecília Adão baseia sua conclusão na tese jurídica de em dubio pro vítimaque visa proteger as vítimas de crimes em cenários incertos, sendo estudado como contraponto ao tradicional na dúvida pro reo (a favor do réu). Focado na vitimologia, o conceito sugere priorizar a vítima, sendo especialmente utilizado para crimes sexuais, que ocorrem em contextos íntimos e de difícil comprovação dos fatos. Enquanto a ditadura agia para encobrir os seus crimes, o em dubio pro vítima se aplicaria ao possível ataque.

Passados ​​os prazos para pleitear a possibilidade de indenização por crimes políticos, o único resultado prático do reconhecimento das mortes de Juscelino e de seu motorista como vítimas da ditadura seria uma correção em suas certidões de óbito, como aconteceu no caso do deputado Rubens Paiva, morto pela ditadura em 1971 e cujo documento foi retificado em 2025. Um reconhecimento puramente simbólico.

Rodovia mortal

Principal ligação rodoviária entre as duas maiores regiões metropolitanas do país, Rio e São Paulo, a Rodovia Presidente Dutra foi inaugurada em 1951 e, desde então, não houve um único ano em que pelo menos uma centena de pessoas não tenha perdido a vida em suas curvas.

Dezenas de milhares de vidas foram perdidas em 75 anos, sem que houvesse uma avaliação oficial. Pelo menos 23 mil mortes teriam ocorrido na rodovia até sua privatização, com um resultado total estimado em cerca de 32 mil mortes até o momento.

Conhecida pela precariedade num país que também não investe em registros, a rodovia acumulava uma média anual estimada de 500 mortes antes de sua concessão à iniciativa privada.

Só nos primeiros dez meses de 1993, 276 pessoas perderam a vida nas rodovias. No ano em que foi concedida, em 1996, o número era de 520 mortes. Após a privatização, a rodovia, que era conhecida pelos buracos e recapeamento asfáltico improvisado, recebeu investimentos na duplicação de trechos que antes funcionavam em mão dupla, radares de velocidade e outras melhorias.

Em 2018, foi atingida a menor marca histórica, com “apenas” 130 mortes, segundo informações da Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos (ABTLP).

Atualizar

O texto foi atualizado para incluir a posição da Comissão sobre Mortes e Desaparecimentos Políticos.

Atualizado em 08/05/2026 às 15h15



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