A dinâmica de possíveis acusações no caso Master, com Daniel Vorcaro, seu cunhado Fabiano Zettel, o ex-presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa e mais recentemente o advogado Daniel Monteiro, revela uma disputa sobre benefícios oferecidos pela Polícia Federal e pela Justiça, como redução de penas e multas.
A reportagem apurou que Vorcaro é o que tem maior quantidade de informações porque teve contato com mais operações do esquema criminoso. Mas a sua hesitação em denunciar poderia abrir a porta para que outros sob investigação oferecessem primeiro informações estratégicas à polícia, esvaziando o testemunho do antigo banqueiro.
Vorcaro deu sinais de que encerraria seu pleito rapidamente e com potencial para incluir pelo menos duas dezenas de políticos e autoridades dos Três Poderes. Mas há pelo menos duas semanas sua defesa e a Polícia Federal tentam negociar os últimos detalhes de um acordo de delação premiada, sem chegar a uma conclusão.
Segundo analistas ouvidos pela reportagem, o cenário pode ser comparado no contexto jurídico penal ao “Dilema do Prisioneiro”, situação imaginária que faz parte da Teoria dos Jogos, modelo atribuído aos matemáticos Merrill Flood e Melvin Dresher em trabalho para a Rand Corporation na década de 1950.
O dilema teórico surge de uma situação em que dois presos precisam decidir se confessam um crime ou permanecem em silêncio. A teoria conclui que, a menos que haja algum tipo de intervenção externa, ambos tendem a confessar em vez de permanecerem calados e esperar que o outro adote o mesmo comportamento.
O criminalista Márcio Nunes reforça que a multiplicidade de investigados aumenta ainda mais a “concorrência”, pois diferentes atores podem apresentar diferentes versões, documentos e ligações.
Segundo o especialista em Direito Penal Matheus Herren Falivene, neste caso, o “jogo” possível envolve pelo menos três variáveis: quem informa primeiro tende a obter melhores benefícios; Quem apresenta informações mais relevantes e inéditas ganha maior poder de barganha e quem atrasa ou entrega pouco corre o risco de perder espaço nas negociações, o que criaria um ambiente de competição entre potenciais denunciantes.
“Não há nada de ilegal ou de pressão indevida. É algo natural no processo, uma competição entre os próprios investigados”, afirma o constitucionalista André Marsiglia.
Marsiglia analisa que há uma “corrida de denúncias” em curso. Segundo ele, esse movimento ocorre quando diferentes pessoas investigadas percebem que o valor de suas informações depende diretamente do tempo e da exclusividade. “Quando se tem mais de uma acusação e provas robustas, a colaboração de uma pessoa pode perder a utilidade diante da possível acusação de outra”, explica.
VEJA TAMBÉM:
-

Gilmar Mendes ignora caso Master e prepara edição maior do “Gilmarpalooza”
-

Ex-presidente do BRB acena e pode esclarecer caso Master
Múltiplas alegações reduzem o risco de proteção das autoridades
O maior risco de uma declaração única para uma investigação é que o colaborador seja seletivo e entregue apenas parte dos envolvidos no esquema. Os analistas levantaram a hipótese, por exemplo, de que Vorcaro denunciou, mas não implicou as autoridades judiciais.
Em teoria, este tipo de estratégia pode ser evitado através de denúncias de múltiplos colaboradores.
Sem um acordo simultâneo de todos os colaboradores, pode ocorrer o seguinte cenário: um investigado decide proteger determinada autoridade, outro, buscando maximizar seus benefícios, decide revelar nomes.
Como não existe confiança total entre os envolvidos, a estratégia mais racional tende a ser entregar o maior número possível de nomes, para evitar ser “traído” por outro denunciante.
Por isso, especialistas afirmam que múltiplas denúncias funcionam como um mecanismo de pressão mútua. “Ninguém quer ser o último a falar, nem o que menos falou”, reforça Nunes.
“Isso aproxima o sistema de um cenário mais eficiente e equilibrado, em que todos são incentivados a cooperar plenamente com a investigação”, lembra Marsiglia.
VEJA TAMBÉM:
-

Gilmar Mendes vota com Mendonça para manter ex-presidente do BRB na prisão
Vorcaro ainda tem cartas fortes, mas está sob pressão
Daniel Vorcaro ainda seria, em tese, o “player” com maior capacidade de oferecer informações estruturais, por estar no centro das operações investigadas.
“No entanto, a demora na formalização da sua contestação é vista como um risco estratégico”, avalia Clarisse Andrade, doutora em Direito Público, inibindo a vantagem do pioneiro. Quanto mais tempo demorar, maior será a probabilidade de outras pessoas sob investigação anteciparem as revelações e de as autoridades já terem acesso às provas por outros meios. Isso faria com que sua colaboração não fosse mais considerada sem precedentes.
Os juristas destacam que em casos complexos como o de mestrado, o tempo é um bem negociável. “Se o Vorcaro não “jogar” rápido, poderá ver o seu valor diminuir neste caso”, reforça Márcio Nunes.
Enquanto a defesa de Vorcaro ainda negocia termos e condições, incluindo discussões sobre valores a serem devolvidos e formas de pagamento, o ex-presidente do Banco de Brasília Paulo Henrique Costa sinaliza uma disposição mais direta de colaboração. “Quem tem mais a dizer e consegue apresentar mais cedo tende a obter mais benefícios”, resume o advogado.
A lentidão na formalização do apelo de Vorcaro pode ser interpretada de duas maneiras. Como estratégia em que a sua defesa estaria tentando maximizar o valor da informação, organizando um pacote robusto que justifique maiores benefícios ou, por outro lado, como erro estratégico e perda de impulso.
VEJA TAMBÉM:
-

Dino propõe reforma do Judiciário e choca com código de conduta de Fachin
-

PT propõe reforma do Judiciário em meio a suspeitas envolvendo ministros do STF no caso Master
O apelo de Zettel envolve possível esgotamento do valor informativo
No caso de Fabiano Zettel, a percepção dos bastidores é que ele não teria chegado a um acordo de delação premiada porque “não tinha mais nada para entregar”, além do que foi apreendido em quatro fases diferentes da operação Compliance Zero e do que Vorcaro teria a dizer.
Para os especialistas, um denunciante só tem poder se tiver informações relevantes, que são dados ainda não conhecidos pelas autoridades e a capacidade de implicar outros agentes através da apresentação de provas. “Dizer a Zettel que seu acordo pode não ser concretizado pode ser um fator que o faz falar mais, entregar mais. Mais, inclusive, do que outros denunciantes estão dispostos a revelar”, reforça a jurista Clarisse Andrade.
Embora Zettel esteja actualmente numa posição com pouca capacidade de obter benefícios relevantes porque o seu “stock de informação” já teria sido consumido ou excedido, isto mudaria se ele de facto tivesse mais para entregar do que as autoridades podem considerar.
“Os elementos observados, competição por protagonismo, tempo das acusações e divergência entre os investigados, aproximam-se de um modelo de teoria dos jogos”, reforça Alessandro Chiarottino.
Paulo Henrique Costa ocupa posição intermediária, mas oferece riscos a Vorcaro
Preso na quarta fase da Operação Compliance Zero, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, trocou de defesa há poucos dias, movimento que é interpretado como um possível passo para a negociação de um acordo de delação premiada.
Os juristas acreditam que Costa ocuparia uma posição intermediária no caso, mas que poderia roubar os holofotes. Como ex-diretor de instituição diretamente impactada, ele pode oferecer uma visão institucional do funcionamento do banco, das decisões internas e de um dos pontos ainda a serem esclarecidos: a ligação com agentes públicos.
O seu poder de negociação dependeria de dois fatores: se as suas informações são independentes ou meramente confirmativas e se ainda existem fatos relevantes que não foram revelados. “Parece-me que ele está disposto a falar e certamente tem muito a dizer”, lembra Marsiglia.
VEJA TAMBÉM:
-

Protesto pró-vida contra Messias no STF terá ato com sapatinhos de bebê
Possível resistência institucional e custo de reputação
Outro elemento com peso em possíveis acusações é o papel das instituições como “árbitros do jogo”. Influenciam os incentivos exigindo provas, limitando benefícios e evitando acordos baseados apenas em narrativas.
“Isso aumenta o custo de uma delação premiada fraca ou inconsistente, reduzindo o incentivo para colaborações oportunistas”, lembra Márcio Nunes.
Na análise de Alessandro Chiarottino, o momento é marcado por intenso trabalho das defesas para ajustar o conteúdo das colaborações.
“Os advogados estão tendo muito trabalho para calibrar as declarações da forma mais favorável aos seus clientes”, explicou. Este processo envolve não só a organização de provas, mas também a definição do âmbito das informações que serão entregues às autoridades.
Ele ressalta, porém, que há um fator que tende a tornar o resultado imprevisível: interesses conflitantes. “Há interesses divergentes entre os investigados, o que pode levar a resultados inesperados”, pontuou.
Apesar das incertezas e da aparente lentidão em algumas negociações de delação, especialmente a de Vorcaro, o especialista avalia que há um forte incentivo para que todos os acordos em cima da mesa, até o momento, avancem. “Eles [Vorcaro, Zettel e Costa] eles têm fortes incentivos para denunciar”, disse ele.
Quando questionado sobre a possibilidade de um movimento mais amplo, Chiarottino é direto, indicando que o cenário pode evoluir para uma acusação de longo alcance, com múltiplas partes envolvidas.
O avanço ou não dependerá da avaliação de órgãos como a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e, em última instância, o Supremo Tribunal Federal, que identifica a consistência das informações e a validade jurídica dos acordos. O relator do caso no STF, André Mendonça, já deu sinais de que as denúncias só serão concretizadas se forem robustas e consistentes.
VEJA TAMBÉM:
-

BRB aprova aumento de capital de até R$ 8,8 bilhões para fazer frente ao déficit pós-Masters
